Ano: IV/ Nº 25 - Miguel Calmon, setembro de 2005

EDITORIAL

Por Vírus
Setembro de 2005

Recentemente foi vinculada na rede de televisão regional, uma propaganda referente aos 81 anos de Calmon Sin City, assinada pelo governo "trabalhando com você", este aqui de nossa cidade. No meio de imagens e som, ouvi uma frase que dizia que quem mora aqui, vive no paraíso.

Como acredito que cada paraíso tem o seu tentador, chega a vocês agora mais uma edição do Vírus. A edição de aniversário.

Cada povo, em cada época, tem a seu modo: poetas, escritores, loucos, filósofos, profetas, políticos, artistas, corruptos, assassinos, etc.. Calmon Sin City, não poderia ser diferente. Hoje comemoramos 4 anos de jornada como jornal Vírus. Nascemos nesta terra, devido a própria terra, com seu aspecto financeiro, político, religioso e blá blá blá.... Somos um jornal independente e nos orgulharmos disto.
Escolhemos ser isso. Poderíamos ter escolhido sentar com os poderosos e usar o nosso conhecimento para o seu favorecimento. Todavia decidimos fazer frente ao que chamamos de escoria camuflada e cauterizadora, e dizer não as suas manias. Dizem que o Vírus fala mal de Deus e do mundo. Mentira. Nós não falamos mal da dona de casa que sonha com uma cidade onde seus filhos e netos, tenham condição de vida digna. Não acusamos estudantes e professores de nada, e sim a uma rede de ensino que carrega no seu bojo um sistema de exclusão. Dizem que não elogiamos e só criticamos. Acontece que construíram uma casa (Calmon Sin City), a fachada bela, mas quando entramos encontramos na sala de jantar cadeiras vazias, pois esqueceram de mandar convites a todos os filhos para participarem do bolo. Ah! E que bolo.

Querem acabar com o jornal, então lá vai uma sugestão. Construam uma cidade sem favorecidos, sem política que anuncia que "com você eu tenho tudo, sem você eu tenho nada", faça da cidade uma república democrática de valores sociais, e então o Vírus deixará de existir. Espere!
Não acredite nisto, com certeza ficaríamos para falar das flores do jardim, pontuando é claro no final das nossas edições que a beleza das rosas é efémera. Boa leitura. E feliz aniversário a todos os Vírus de Calmon Sin City.
Jesser Oliveira, poeta.

BRASIL: Geração dos descartáveis

Por Rafael Braim
Setembro de 2005

"Agente só serve, enquanto está servindo, quando para de servir não serve mais."

Assim perdura a ideia que se tem de um mundo lotado de pessoas modernas e descartáveis. Vejamos por quê: existem hoje no mercado nacional pessoas canetas que tem por obrigação ou subordinação escrever a história de outrem, ato que de si próprio acabe a tinta do conhecimento. E o seu corpo sendo o cartucho do descanso o tempo vem devagar e sempre assola a vida desse miserável deixando de bom até que se considere bom as mãos, para que ele saiba que "uma mão lava a outra". Em seu lugar estará agora outro jovem como assim foi ele escrevendo uma nova história para o velho que foi moço admirar e aplaudir, por isso que restou-lhe as mãos.

Espero está sendo claro pois reagir contra a subordinação do indivíduo à coletividade implica que a gente comece por se recusar a subordinar o nosso próprio destino ao curso da história. E foi assim e, será a falta de compromisso que nos deixa as margens de um ataque de esteria só porque descobrimos ou nos contaram quem foram os mentores da nossa demissão, ou salvação do cárcere privado que com todo respeito chamamos de sistema, (s-i-s-t-e-m-a). Automaticamente que não tiraram de você somente o emprego lhe salvaram de tomar-se mais um bajulador e pra ser objetivo puxa-saco. Não condeno quem faz tal pratica, só peço que sejais discretos, porque as paredes tem ouvidos.

Pensando bem já que as paredes ouvem, elas também falam, preste atenção companheiro pois neste momento a sua virgem cândida filha pode está sendo desvirginada mas tem pais que são cegos, só encontrando o defeito na filha do outro, só resta meus pêsames e essa linda canção: seu delegado prenda Tadeu ele pegou à minha irmã e? A quem culpar? Pronto é só fazer reposição do hímem e a danadinha está pronta pra outro confronto, se for pobre e engravidar as más línguas irão dizer é filho de riquinho! tiquinho de um tiquinho de outro, más sendo "rica" é só fazer dna, logo de cara foi o Roberto.

Custa acreditar, na situação de semi escravismo que vivemos hoje tudo porque ainda não aprendemos tirar leite de pedra ou contar 3 pra mim e um pra você. O importante é perseverar e vencer os modismos fazendo uma reflexão para a libertação da espécie ser humano, que a cada dia possa está na lista dos animais em extinsão ou produto descartável mas se você preferir vai meu conselho. Pior é nada é melhor correr o risco agora do que ficar batendo bosta com dois paus, lembre-se ideologia não enche barriga, claro que nem sempre puxasaquismo lhe dá cargo de confiança

Rafael Braim

Pronto-socorram

Por Cristiani Silva
Setembro de 2005

"Só existem duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Eu tenho dúvida quanto ao Universo".

Eu tenho dúvida em relação à sensibilidade humana. Tenho certeza de que Deus se arrependeu de ter querido criar o homem à sua imagem e semelhança. É lamentável olhar o resultado catastrófico da Sua criação. As filas de hospitais são um exemplo de que a fórmula tinha tudo para dar certo, mas falhou. Queria saber se as pessoas que direcionam a saúde calmonense (sei que o caos é nacional, mas estou sabendo o nome e a ferida dos que sofrem porque eles são meus conterrâneos. Aí incomoda muito mais) utilizam o serviço desse hospital quando o caso é a saúde deles ou dos familiares. Tenho absoluta certeza de que vão à Salvador. Eles não suportariam o descaso daqui. Já ouvi alunos dizerem: "Pró, estou presente, mas vou rapidinho aqui no matadouro".

O matadouro ao qual eles se referem é o hospital. Já escrevei sobre ele uma vez, mas foi pouco. Já até esqueceram. Dá pena e pânico precisar desse atendimento. É ridículo. E olhe que eu sempre fui muito bem tratada quando precisei. Felizmente, foram poucas as vezes que isso aconteceu porque quem tem um amigo-médico como nós lá de casa também tem atendimento VIP, a domicílio, com cuidados redobrados e um carinho especial. Mas a maioria das pessoas pobres como eu, não tem esse privilégio e fica lá a mercê da sorte e da paciência. A dor é secundária, o medo do "não saber o que é" é frescura, a falta de informação e de dinheiro, principalmente, são fatores que doem mais do que a própria doença. Queria conhecer a fórmula da indiferença, dominar todos os conceitos e definições da falta de sensibilidade.

É uma estupidez achar que doente só precisa de remédio e de uma receita para ficar bom. Veterinário que é veterinário conversa e afaga os seus clientes, imagina então como seria um bom médico, um hospital para gente que cumprisse a sua responsabilidade social? Existem pacientes chatos, é lógico! A chatice está no DNA de determinados elementos, mas a grande maioria é simples, humilde e, como Annie Frank, ainda acredita na bondade humana. Tratados como uma bactéria macroscópica, ficam a espera de um milagre: o bom atendimento e o respeito pela sua ignorância no assunto. Se todos soubéssemos identificar sintomas e fazer o próprio diagnóstico, a UFBA já teria exterminado o curso.

A profissão tornar-se-ia dispensável. Compreendo a parte do médico (alguns poucos). Ele também se cansa e chega ao limite, mas a doença não espera o almoço, o sono, o próximo plantonista, ela chega e apavora o pai, a mãe, o filho que se sentem diante da morte. É estúpido e amoral ignorar o desespero de pessoas que precisam do profissional que é o único terrestre capaz de cuidar do seu bem mais precioso: a vida. Uma instituição que não dispõe de recursos para viabilizar um maior número de "salva-\idas de branco" não deveria construir pirâmides e colossos de rodes. Sem atendimento sugiro que na fachada do novo prédio seja instalada uma cruz.

Cristiani Silva, tantas vezes paciente

Terra em Transe

Por Vírus
Setembro de 2005

Se você quer ser Vírus mesmo o público da gente é o mundo Se você quer ser Vírus mesmo o palco de vocês é a rua o cotidiano Se você quer ser Vírus mesmo combatam a higienização das ideias não aceitem o lugar-comum Se você quer ser Vírus mesmo agarre-se a essa oportunidade coletiva de criar um mundo outro uma escola outra um trabalho outro uma política outra Se você quer ser Vírus mesmo jamais aceite a censura de pensamento e da expressão Se você quer ser Vírus mesmo é preciso ter um espírito insaciável para se explorar as inesgotáveis possibilidades de pensar livremente Se você quer ser Vírus mesmo rasgue as bandeiras do impedimento Se você quer ser Vírus mesmo entre em todas as estruturas sem perder o rumo Se você quer ser Vírus mesmo conéctese delete velhas ideias espiritualize-se Carpediem-se digitalize-se radicalize-se Se você quer ser Vírus mesmo desconfie do tapinha nas costas do sorriso branquinho da esmola Se você quer ser Vírus mesmo desarme a bomba atómica que está dentro de você Se você quer ser Vírus mesmo cante e desencane "pro mode de que" ninguém precisa ser igual a ninguém Se você quer ser Vírus mesmo Viva la Resistance Se você quer ser Vírus mesmo saiba dizer NÂO saiba dizer SIM saiba dizer CONCORDO ou DISCONCORDO Se você quiser ser Vírus mesmo saiba que o paraíso é fugaz e o inferno não é pra principiantes Se você quiser ser Vírus mesmo e não tiver culhões nem tente Se você quer ser Vírus mesmo seja o protagonista de sua própria história.

Se você quer ser Vírus mesmo acredite que podemos nos transformar diariamente em pessoas melhores Se você quer ser Vírus mesmo vacine-se contra a preguiça Se você quer ser Vírus mesmo saiba que a liberdade é a coisa mais séria e subversiva que existe que é algo que se conquista Se você quer ser Vírus mesmo compreenda o outro Compreenda que o outro somos nós Se você quer ser-livre mesmo o desafio é encarar a sedutora aventura de ser você mesmo condenado a ser livre mas responsável pelo seu mundo e seus atos.

Marcelino Pintho

Quem acredita sempre alcança

Por Bárbara Lais
Setembro de 2005

Mais uma vez, a falta de vergonha levou a melhor sobre o bom senso e a moral. Carreata, bombas, muito barulho e muita cara-de-pau ilustraram as ruas de Miguel Calmon no dia n de agosto. Eu já nem me surpreendo. Afinal, são quase dezessete anos de Bahia-Brasil. Mas é que tenho a mania de ficar me questionando se vale a pena o direito de votar para escolher os representantes, sendo que se a sua escolha não for a mesma da elite, é tempo e voto perdido. Não sei também se ainda é útil pregar pelos bons costumes, honestidade e transparência, se sem isso ainda se chega lá. O que me assusta é ver tanta gente que eu julgaria consciente comemorando o caos e o começo do fim. Ou será que eu estou louca em chamar donos de estabelecimentos, professores, funcionários diversos, etc, etc, etc, de retardados e/ou cúmplices? Porque o que eu sabia é que a corrupção, a safadeza e a picuinha ainda existiam na política por culpa do voto de gente desse tipo. E, se assim não for, não existe explicação; pois quem se dedica à observação das diversas mazelas causadas pelo homem sabe que só existe domínio, destruição e degradação quando as pessoas envolvidas são alienadas. Se em cada um houvesse um pouquinho de senso crítico e respeito pela honra e dignidade, as coisas raramente seriam tão fáceis.

O chato é que uns poucos têm essas características e sequer podem usufruir delas, pois é ir de encontro ao muro. (Estou tratando aqui de influências, dinheiro e poder, que dificilmente acompanham os abençoados conscientes). Bom, estou fazendo minha parte. Os que lerem esse texto e me apoiarem estão cegos comigo no meio de um tiroteio, mas quem sabe não daremos a sorte de, em pleno escuro, acertar um tiro no alvo? Tudo tem um começo. Juntos e sóbrios faremos o que poucos desgarrados jamais conseguiram.

As grandes revoluções começam assim e espero não ser utopia minha pensar em mudanças (ainda que sejam inicialmente locais). Não acho que estas estejam próximas, mas nada como esperar lutando. Uma fortaleza se ergue imponente, contudo não é eterna, um tremor de terra pode derrubá-la Podem levar anos, mas uma hor.i acontece. Que dure enquanto é possível, "but every time the mighty fali"*, como diria Ozzy.

Bárbara Lais * Tradução: mas toda vez os poderosos caem

Entrevista

Vírus entrevista Leandro Michel, o rebelde, o revolucionário, o mais polêmico e idealizador do jornal Vírus



Vírus: É incontestável que você é conhecido na região, seja como professor ou como jornalista, mas mesmo assim, quem é Leandro Michel?

Leandro: Eu me considero uma pessoa de sensibilidade aguçada. Eu, geralmente pareço ser uma coisa que não sou. Para me conhecer é preciso viver comigo. Eu tenho uma preocupação de preservar os meus princípios, apesar de ser esse rapaz "revoltado", "revolucionário". Acho importante manter o caráter, a dignidade, a palavra, ser coerente. Eu acho que eu sou assim.

Vírus: E essa cabeleira? Que revolta é essa?

Leandro: Na verdade, desde a adolescência eu sonhava em ter o cabelo grande, mas achava que meu cabelo era ruim e que não ia dar certo. Mas chegou um momento em que eu decidi tentar. Ia chegar uma hora que isso não ia mais combinar comigo, aí eu deixei crescer. Acho que ficou legal e que veio em boa hora, porque cabelo grande em homens dá aquele ar de rebeldia. Alguns me dizem para cortar, mas outros me dizem que ficou legal. Acho importante a gente mudar o visual de vez em quando.

Vírus: E esse visual não remete um pouco a Che Guevara? Teve alguma influência dele?

Leandro: Ah, eu tenho muita influência do Che Guevara. Dessas grandes figuras eu diria que três marcaram a minha vida. Uma delas foi Che, o revolucionário, o último Dom Quixote. Aí vem Jesus que também tinha o cabelo longo (pelo menos é o que dizem as fotos) e meu ultimo ídolo, mas que não tem o cabelo grande, foi Pe. Paolo. Ele tem um lance especial porque os demais eu não vi fazer o que fizeram, mas o Pe. Paolo eu vi, ouvi e senti. Como líder religioso ele faz jus a esse titulo. Principalmente porque esteve do lado do povo e não dessa elite ordinária de Miguel Calmon.

Vírus: Como você ver a atuação das igrejas, de uma maneira geral, na área social da comunidade calmonense?

Leandro: Acho que, a começar por ele, Pe. Paolo foi uma revolução em Miguel Calmon. E aí está a minha admiração por ele que fez cair por terra a ideia que os evangélicos eram os donos dessa cidade. Eles tinham uma postura arrogante de superioridade, achavam-se os melhores em tudo e eu via a igreja católica um pouco murcha, devagar. Pe. Paolo deu uma injeção de animo, de espiritualidade, de convivência social, de luta social. Ele fez um trabalho que eu achei espetacular, fazendo nos últimos anos o que o Poder Público não fez em décadas. 0 interessante é que fez isso sem fins lucrativos. Seu objetivo era dar dignidade ao homem. As igrejas evangélicas não, elas não fazem nada, não estão preparadas para fazer uma revolução, ainda são muito "quatro paredes". Inclusive, elas não fazem nenhuma mobilização porque estão atreladas ao Poder Público, se chegarem a fazer algo que fira o poder, podem perder alguma coisa que não sei o que é... Acredito que seja por aí, infelizmente. Quando me posicionei contra o Dia do Evangélico foi baseando-me nisso. Se fosse o Dia dos Mortos-Vivos, combinaria mais.

Vírus: Então você relaciona as igrejas evangélicas às questões políticas e à troca de interesses?

Leandro: Sim. O pastor da Congregacional e da Presbiteriana são, para mim, insignificantes enquanto líderes religiosos, como todos os outros. Com o poder que eles têm poderiam fazer mais. O que fazem é muito artificial, querendo ser politicamente corretos e agradar a gregos e troianos e em nossa sociedade com tantas desigualdades não há como agradar a todos. Os evangélicos gostam de dizer aquilo que os poderosos gostam de ouvir. A postura cínica desses caras é irritante. Eles escandalizam a proposta de Jesus, Pe. Paolo tinha relações com os poderosos, mas eles sabiam qual era a postura dele.

Vírus: A sociedade atual dispõe de uma relativa liberdade de expressão. A que você atribui a passividade frente à realidade política e social do país?

Leandro: A passividade é fruto de uma estrutura de sociedade que conduziu a juventude para a alienação. A elite e o sistema, atrelados ao poder económico, manipulam os veículos de comunicação, desestruturam a educação, a televisão que não informa, desinforma. Quando algum jovem chega a questionar essa situação, dizem que é revoltado e isso inibe as pessoas.

Vírus: E como você vê o papel da censura no Brasil e particularmente em Miguel Calmon?

Leandro: A censura é sempre uma afronta a um direito do ser humano, que é a liberdade. A censura é cruel. Em Miguel Calmon ela é visível, é muito clara. Mas como Miguel Calmon é uma província, não evoluiu ainda, quem nos governa são provincianos, pessoas atrasadas, duras, retrógradas, sem sensibilidade. Quando pessoas como essas nos governam, a sociedade padece, valores importantes são castrados de maneira brutal e medíocre. O Vírus é uma manifestação contra essa censura.

Vírus: Por que você diz que a FM Canabrava não pode ser considerada uma rádio comunitária?

Leandro: Primeiro que se ela fosse comunitária, seria um bem comum, do povo. Quando eu falo povo, não falo só da periferia, falo do povo enquanto gente. Não vemos na rádio, por exemplo, um discurso em prol desse povo. A radio trabalha em cima de uma teoria: ser o politicamente correto, falar o que "as pessoas" gostam de ouvir. O povo enfrenta problemas, sofre com esse sistema brasileiro e, ao invés da radio apontar esses problemas, para soluções, ela camufla, disfarça uma realidade cruel e que precisa ser combatida. Ela é incapaz de contestar, de questionar. Quando algum locutor procura fazer algo, chamam a atenção, querem cortar o programa e foi isso que aconteceu com o que eu apresentava com Pintho. Disseram que a gente estava apresentando o programa bêbados e que falávamos palavrões. Fazíamos um programa de bom nível cultural, com informações semanais das melhores revistas. Éramos irônicos, contávamos piadas, falávamos sério, trazíamos músicas da atualidade, fazíamos entrevistas, batíamos papo. Daí nos cortaram porque quando queríamos falar do Poder Público daqui, falávamos. Porque é muito fácil para o pastor Waldir, aquele analfabeto, "meter o pau" em Lula e ser incapaz de criticar que se busque o poder daqui. Ora, ora, ora, ele quer enganar a quem? Quem somos nós para falar de lá de cima? Vamos começar por aqui. Se a gente conseguir resolver nossos problemas, mudaremos o Brasil. A rádio é comandada por pessoas ultrapassadas, conservadoras, que não falam a língua do povo e da juventude. Isso não é comunitário. Quando o Vírus critica alguém, a rádio sai na defesa e ainda critica o Vírus. Ela convida quem é criticado pelo jornal, mas nunca convida quem escreveu a crítica.

Vírus: Faça uma análise sobre a atuação da mídia em geral com relação aos problemas que afetam o Brasil atualmente.

Leandro: A mídia é tão corrupta quanto os políticos. Ela é maléfica. Por exemplo, por que Marilene Felinto, na revista Caros Amigos, quer derrubar o Jornal Nacional? Porque, por incrível que pareça o jornal está dando ênfase ao neto de ACM. Já tem até uma frase rolando nos palácios que diz: "ão, ão, ão, conversa de salão, o neto de ACM querendo falar em corrupção". Aí aquele filhinho de papai, aquele burguesinho, num ímpeto de falar em honestidade e ética, vem dizer que nós temos que derrubar os corruptos. Por que ele não derrubou o avô dele? É isso que é a mídia, ela só mostra o posicionamento da direita. Ela não esclarece, ela ludibria e confunde o cidadão. Nessa história do mensalão, a mídia quer acabar com a imagem do PT, dizendo que a esquerda não tem competência. Peraí, aquele Marcos Valério vem desde FHC. Isso já existia antes. A merda em que está esse país não é culpa da esquerda ou do PT, mas da direita que comanda o Brasil desde o "descobrimento". Vírus: O medo vai vencer a esperança? Leandro: Eu não diria que o medo vai vencer a esperança, mas tivemos uma grande oportunidade que foi desperdiçada de forma melancólica. O governo Lula foi medíocre. Uma grande decepção. E eu não falo isso por causa dessa crise de corrupção. Qual é a novidade para nós? Eu não falo que Lula deveria adotar uma postura radical como Heloisa Helena, mas o governo demonstrou que nem ele, nem ninguém tem um projeto para solucionar o problema da desigualdade social no Brasil. O governo Lula mascarou um projeto que não existe, Lula criticou a direita e governa para ela. Ele continuou a fazer do Brasil uma empresa que precisa trabalhar para outros e precisa fazer isso bem. Isso vem desde a época da colónia. A colónia Brasil tinha que funcionar bem para satisfazer a metrópole Portugal, depois satisfazer a Inglaterra, depois o capital internacional.

Vírus: Seria possível desvincular dessa relação de poder estabelecida pelo capitalismo?

Leandro: Não, eu acho que não. Enquanto o Brasil fica sofrendo com seus 54 milhões de miseráveis, continua pagando seus 450 bilhões de reais a divida externa. Continuase pagando essa divida enquanto nada é feito para melhorar as condições internas. O governo quer manter isso, ele fica naquela de que se não pagar e romper com o capital internacional, o Brasil vai se dar mal. Eu pergunto: Sinceramente, tem como ficar pior do que está? O que é pior do que isso? Aí os políticos permitem uma coisa dessas porque eles recebem algo em troca. Não vão contra porque perdem todos os benefícios. Se não fosse desta forma, quem ia querer exercer um cargo desses? Pelos benefícios próprios, eles deixam o país do jeito que está e continuam ficando milionários. Estar no poder é bom e infelizmente temos um bando no Congresso que devia passar pela guilhotina.

Vírus: John Lennon afirmava "que o sonho acabou". Apesar de tantas mazelas você é um sonhador?

Leandro: Sou e vou morrer sonhando. Aquela história de que nós não precisamos mais de heróis, é uma loucura. Precisamos sim! Heróis são referências. Quem são os nossos heróis hoje? Bush? Blair? Bill Gates? Essas figuras são os heróis do capitalismo. Precisamos de verdadeiros heróis e precisamos sonhar. Não sonhar divagando, mas acreditar que as coisas podem melhorar, que um novo mundo é possível. Eu não acredito que o Brasil não tem jeito. Lula vai passar como um grande equivoco, isso vai nos ajudar a amadurecer.

Vírus: Você possui algum engajamento político?

Leandro: Não e nem pretendo. Hoje acredito que a solução não está só na política, mas principalmente numa sociedade mobilizada.

Vírus: As pessoas dizem que você fala o que fala porque deseja o poder. Isso é verdade?

Leandro: Eu não almejo o poder. Primeiro porque ele me assusta. Maquiavel disse "Quer conhecer a verdadeira face do homem? Dê o poder a ele". Todos que eu conheço que tiveram o poder nas mãos não foram bem sucedidos. Eu me assusto com b poder, Eu me assusto com o jornal. E quando se fala em poder público de Miguel Calmon, é pior ainda. Se estivesse lá seria mais um nessa politicalha. Perderia um pouco do Vírus e acabaria me limitando porque não poderia mais sair por aí contaminando as pessoas fazendo com que saibam que é possível uma mudança maior. Não a mudança para outro representante político, colocar alguém por colocar, não altera nada. Poderíamos colocar Jesus na presidência, Ele também não solucionaria porque a forma como está estruturada a política brasileira, não há como governar. São muitas pessoas com o poder de decisão, sendo que a maioria pensa exclusivamente em interesses pessoais. Então, não quero o poder político de Miguel Calmon, penso, porem, algum dia, subir num palanque para defender ou apoiar algum candidato. Mas, eu candidato, não.

Vírus: Avalie os oito anos do governo Caca.

Leandro: Caca é uma farsa, uma grande mentira. Caca é o maior produto de marketing da história de Miguel Calmon. Se Duda Mendonça estivesse por trás de Caca, eu não duvidaria. O governo de Caca foi uma coisa comum, simplória, mas é visto como uma coisa tão grandiosa, que eu me pergunto, que governo foi esse que não vi? Analiso o Poder Público nos seus pilares: A saúde, por exemplo. A saúde aqui é uma piada. As pessoas dependem de um hospital, o Pe. Paulo Felber, que os alunos chamam de açougue. E são esses alunos de escola pública que sabem o que uma pessoa humilde sofre ali, com aquelas filas enormes, com atendimento precário e um descaso total com a dor do ser humano. Eles têm dinheiro para construir uma coisa monumental, fantástica daquela, coisa de primeiro mundo, mas não tem dinheiro para colocar dois médicos de plantão. Se vamos para a cultura... A Feirart Cultura. Patética. Foi coisa feita para se aparecer, para se amostrar. Fora isso, não vi mais nada de investimento cultural. Já o esporte... O futebol de salão teve uma época brilhante com o apoio de Caca, mas antes que ele terminasse o mandato, o salão morreu justamente no seu auge. A gente não tem mais vôlei, basquete, futebol de campo, handball, nada. Não existe nada no esporte de Miguel Calmon. Quando se fala em Educação, me vem o texto que Pe. Paolo escreveu no jornal anterior. Ele dizia assim:" Até quando é o prefeito da cidade que decide quem ensina aonde? Não haverá crescimento cultural assim. Um professor amedrontado passa para os alunos a própria covardia, e esta não favorece o desenvolvimento de uma personalidade autônoma". Aí você tem uma educação onde a maioria dos professores é contratada. Cadê o concurso público para deixar o professor mais livre para falar o que ele pensa e não o que querem que ele fale? Em nível de desenvolvimento econômico e de geração de empregos, pelo amor de Deus, nada foi feito. "Ah, não tem como fazer". Ah, meu amigo, se você não tem como fazer, então não se meta nisso, porque você tem que encontrar uma solução. Eu pago ao Legislativo de Miguel Calmon, aqueles 13 patetas, aqueles 13 indivíduos ridículos que fazem parte da Câmara, para que eles pensem em alguma alternativa. Já começa errado que eles só se reúnem uma vez por semana, e ainda assim, é para falarem do Vírus. Olhe o nível! Eles se reúnem para falar de mim. Será que não existe uma coisa mais importante para esse povo pensar? Nós não temos nada em Miguel Calmon, como se pode ver. Até o São João que era uma festa interessante, se tornou decadente. Resumiu-se em quatro noites de festa e durante o dia não acontece nada.

Cadê o São João dos bairros? Cadê a ornamentação das ruas? Cadê uma premiação para as quadrilhas? Não há planejamento. Mandar água, luz, calçar as ruas e pagar em dia é muito básico, fácil. Principalmente quando se tem apoio dos governos Estadual e Federal. As problemáticas reais continuam. E ainda tem aquela coisa da perseguição, de favorecer os mesmos, de comprar apenas em quem vota neles, que faz política. Esse é o bom? Realmente eu não entendo essa bondade.

Vírus: E como você avalia esse inicio do governo de Humberto e Eliana?

Leandro: Não poderia começar pior, já era esperado por mim. Ele esteve durante oito anos como "vice-prefeito" e o máximo que conseguiu foi ser funcionário da ADAB. Já apresenta um perfil-perseguidor, demitindo Eduardo, Noely, uma merendeira de um povoado (Maxixe, se não me engano), por terem votado no candidato opositor. Fora os que a gente não sabe... Foi terminantemente proibido a qualquer funcionário da Prefeitura trabalhar com a camisa do Vírus assim como aos funcionários da Biblioteca Wilmar de Castro. Quem proibiu? Já Eliana, o único pecado foi ter casado com aquele troglodita, mas como ninguém é perfeito... (risos).

Vírus: Há pessoas que acreditam que a ignorância é melhor que o conhecimento, porque quando você conhece você acaba não aceitando a realidade. Quais são as consequências de se ver a realidade como ela é?

Leandro: A consequência maior é o sofrimento. Você ver a coisa acontecendo, mas não tem o poder para mudar. Enxerga que as pessoas estão sendo enganadas e se pergunta se elas não estão vendo. Será que eles não conseguem ver que a Unopar é uma farsa? Não tenho nada contra o pessoal da Unopar, mas esse tipo de Universidade, essa universidade virtual, é a virtualização do conhecimento. É você ser um alienígena. Então, essa é a principal consequência do conhecimento: você sofre muito, e as vezes é até mal visto pelas pessoas. Mas, sem duvida, o conhecimento é melhor que a ignorância. Esta nos deixa na situação em que estamos. Esse estágio de pobreza e de miséria é fruto dessa falta de conhecimento.

Vírus: Como surgiu a ideia do Vírus?

Leandro: O Vírus nasceu de uns insigths que eu tenho. Vou andando pelo meio da rua, pensando na vida (risos) e aí vêm umas ideias. Numa dessas andanças eu pensei que devia fazer um jornal. Achei que seria bacana reunir algumas pessoas inteligentes de Miguel Calmon para expor ideias, esse tipo de coisa. Na época, eu convidei algumas pessoas para ver o meu projeto e a galera achou a ideia bacana. Aí nós resolvemos colocar em prática e eu mesmo sugeri o nome.

Naquele momento, com a ideia do jornal eu pensava em questionar, porque Miguel Calmon é uma cidade de um discurso só. Então a gente queria fazer uma leitura dessa cidade através de outra linha de pensamento, para combater, comparar, criticar e mostrar que não é assim que a banda toca. Infelizmente poucos continuaram conosco. Pintho e eu estamos desde o início, sempre juntos, os outros seis se dispersaram e nós entendemos os motivos de cada um. Depois de um tempo, Jessé voltou para o grupo e aí ficamos nos três.

Vírus: De que forma você acha que o Vírus pode contribuir com a nossa sociedade?

Leandro: Primeiro, eu acho que o nosso grande papel é informar. Trazer a nossa opinião, contestar, provocar, instigar. Isso já seria o suficiente. Outra coisa que eu acho importante com essa história do jornal é que nós podemos promover eventos. Agora em setembro, por exemplo, estaremos realizando a Primeira Semana de Cinema; depois faremos mesas redondas, recitais de poesia, peças, exposições, etc. Esse é outro meio de levar conhecimento.

Vírus: Quando o Vírus começou havia um monte de patrocinadores, mas ao longo do tempo nós percebemos que muitos não permaneceram. Então aqui vão duas perguntas: Quem financia o Vírus? É verdade que por trás do Vírus está a oposição calmonense?

Leandro: A oposição que existe em Miguel Calmon é o jornal Vírus. A oposição que se diz oposição é muito fria. Muito passiva. Ela faz o papel do politicamente correto. Quem está por trás do Vírus e é oposição somos nós mesmos, os que fazem o jornal. Quanto a questão dos patrocinadores é verdade que muitos saíram e eles saíram porque são cordeirinhos do sistema. Eles dependem do sistema que nós atacamos e isso não fica bem para eles. Dos patrocinadores que saíram, se cerca de 80% deles vendessem apenas para a prefeitura, já estariam ricos como estão agora.

Vírus: Fazendo quatro anos de existência o Vírus constitui uma vitória. A que você atribui o sucesso do jornal?

Leandro: Eu atribuo o sucesso do Vírus a minha persistência. Alguns no poder dizem que vão me vencer pelo cansaço, eu não tenho me cansado. Ao contrário, acho que eles já cansaram. Já até partiram para a agressão... A vitória do Vírus é a vitória da persistência, da utopia. Não poderia deixar de falar do meu grande companheiro Pintho. Que na sua forma mais tranquila sempre participou das edições. O Vírus é, enfim, a vitória dos mais fracos.

Vírus: O Vírus realmente adquiriu a sua cara. Porque cada vez que o jornal sai, o seu texto chama a atenção. Você através dele, se tornou uma pessoa detestada por muitos, mas adorada por outros. Como você lida com essas duas realidades antagónicas?

Leandro: Eu lido tranquilamente. Procuro filtrar tudo o que acontece comigo. Procuro não me empolgar muito com aqueles que me adoram , que me idolatram, porque tenho medo que isso suba à cabeça e me torne uma pessoa arrogante. Com os que me odeiam, eu me divirto. Acho muito interessante o comportamento, a reação deles. Dessa forma eles acabam mostrando que o que eu disse é verdade. Eles deixam cair a máscara facilmente.

Vírus: Você se divertiu quando foi pego pelo colarinho em Jacobina, e sacudido em frente a um restaurante pelo Dr. Vilobaldo?

Leandro: Me diverti, (risos) Tremendo, mas me diverti. Foi uma coisa de moleque essa atitude dele. Eu estava almoçando no Rancho Catarinense, numa quinta-feira, a uns quatro meses atrás, uma semana depois do texto "Meide in Calmon" ter saído no jornal. No texto, eu fiz alguns questionamentos sobre ele ter comprado ou não a vereadora Neide. Eu cheguei no Restaurante e ele já estava lá. De momento, pensei que ele ia me dizer uma cacetada de desaforos, mas aí notei que ele terminou o almoço bem antes de mim e que já tinha ido embora. Pensei: "Que ótimo! Pelo menos eu não vou ouvir nada hoje". Só que quando fui pagar a minha conta, quem estava me esperando do lado de fora do restaurante? O próprio. Pago a minha conta e quando saio só sinto aquele sopapo nos meus peitos. Ele agarrou minha camisa, quebrou o meu colar e começou a falar que eu não sabia com quem estava me metendo. Perguntou se eu não tinha medo de morrer e começou a dizer que eu estava difamando-o. E difamando uma mulher direita, digna e tal. Chamou-me de moleque, safado, homossexual, terrorista, essas coisas todas. Num momento ele bateu no meu ombro e disse que ia arranjar uns caras para me dar uma surra. Ele veio fazendo esse escândalo do Rancho até as proximidades do Fórum. Tirou a gravata, e disse que queria brigar comigo ali mesmo, no meio da rua e aí eu mandei ele se respeitar. Afinal, ele era pai de família, advogado do Banco do Brasil e eu não ia ficar me trocando com ele, pois apesar de não ser elite sei me comportar como homem. Não utilizo a força para me impor, mas a palavra. Sou civilizado. Tomei as providências cabíveis e procurei a Justiça. Hoje ele responde a um processo por agressão física e difamação. Já tive seis audiências marcadas e ele não compareceu a nenhuma. Isso é uma tática dele para tentar me cansar. Em nenhum momento eu disse que ele tinha feito aquilo. Apenas questionei. Mas ele tem que admitir que é o vereador que não foi.

Vírus: Você já se arrependeu alguma vez de escrever as suas bombas?

Leandro: Não. Já me arrependi de não ter escrito. De ter cortado algumas palavras (risos), mas acho que nunca escrevi nada demais. As pessoas fazem muita tempestade com meus textos.

Vírus: Muitas pessoas dizem que o Vírus só critica e nunca faz nada. Qual o seu posicionamento quanto a essa questão?



Leandro: Eu acho que o Vírus faz sim, muita coisa. Ele já informa. Qual é a função de um jornal, afinal de contas? Aqui várias pessoas mostram o seu ponto de vista. É um jornal com entrevistas e com opiniões diferentes sobre determinadas coisas. Ele por si só já é uma coisa grandiosa.

Vírus: O que você diria às pessoas que dizem que o Vírus faz a crítica pela crítica?

Leandro: Acho bom. Apesar de não pensar assim. Eu nunca disse que alguém só podia escrever para o jornal se fosse para criticar. Qualquer um que pergunta se pode escrever para o Vírus, digo que sim. Eu quero criticar, mas não obrigo ninguém a seguir minha linha. Se quiser elogiar, tudo bem. A gente publica. Mas os elogios são tantos que nunca nos foram enviados.

Vírus: À medida que o Vírus foi se firmando, ele começou a incomodar cada vez mais. Que tipo de represália você tem medo de que o jornal possa vir a sofrer?

Leandro: Eu tenho dois receios. O primeiro, que eles consigam de alguma forma, impedir a circulação do jornal. Não sei como, mas temo que eles armem alguma coisa. O segundo receio é quanto a mim, Às vezes fico preocupado, mas não me deixo levar por isso. Mas qualquer coisa que aconteça só confirmará o medo e a fraqueza deles diante da verdade.

Vírus: Você é uma fusão de mineiro e baiano. Um pouco de pimenta e um pouco de tutu de feijão. Como lida com esses paradoxos?

Leandro: Eu já sou essa mistura mesmo. Convivo numa boa com isso. Já está no sangue, não é mais estranho. A única coisa que me incomoda é a saudade que sinto de Belo Horizonte.

Vírus: Você já viveu uma linda história de amor?

Leandro: Acho que estou vivendo uma linda história de amor. Minha relação com Titi hoje é uma coisa grandiosa. Acho que poucas pessoas vão ter a oportunidade de viver uma situação como essa. Um relacionamento tranquilo, compreensivo, maduro, com seus problemas e obstáculos, mas isso também é bom. Acho que isso está só começando. Tem muita coisa boa ainda por vir.



Vírus: Como foi essa transição de amizade para amor?

Leandro: Isso aí foi uma loucura. As pessoas não acreditam que eu era amigo de Titi. E realmente nunca houve nada. Quando a gente se encontrava nem tinha essa história de beijo e de abraço. Era uma amizade mesmo. Mas, de repente, eu comecei a sentir ciúme. E ela começou a fazer umas brincadeiras de não querer mais me ver. Aí a gente resolveu tirar isso a limpo e fomos para o Cruzeiro. Lá a gente começou a namorar. Passamos um ano namorando escondido. Coisa de adolescente, um homem com trinta anos e uma mulher com 34, 35 e três filhos, namorando escondido. Aí a gente resolveu assumir e foi quando surgiram os problemas.

Vírus: Esses problemas surgiram por algum tipo de preconceito? Leandro: É, eu acho que sim. Houve uma dose de preconceito e outra de possessividade, coisa que não tem sentido. Quem decide o caminho da gente é a gente mesmo. Quem escolhe é a gente e se tiver que quebrar a cara, é a gente que vai quebrar. Nós temos que passar por essas experiências e não pai e mãe.

Vírus: Como você vê essa coisa que o jovem tem hoje de ficar?

Leandro: Eu acho essa relação meio promíscua. Essa modernidade acaba tirando a oportunidade do jovem de se apaixonar. Não existe mais aquela paquera de ficar ali, levar em casa, levar na escola... Hoje só paquera pra ficar. O jovem perde a chance de viver uma época bonita do ser humano, que é o romance.

Vírus: Dizem que um homem para viver precisa plantar uma árvore, ter um filho e viver uma grande história de amor. Você já tem um filho, que é o Vírus, como você mesmo diz. Está vivendo uma grande história de amor. Só falta a questão da árvore. Depois de todo esse processo, quem é Leandro agora?

Leandro: Eu vejo um Leandro cheio de responsabilidades e obrigações. Duas coisas de que eu não gosto. Estou ciente do que construí, seguro do que fiz e do que estou fazendo. Sempre esperando que as coisas possam mudar para que, tudo dê certo. Continuo firme nas minhas referencias e com experiências novas como a de morar sozinho. Também quero voar mais alto. Chega um momento que você percebe que pode mais do que aquilo, que precisa correr em busca de algo ainda maior. Como uma pós-graduação ou um mestrado. De repente Miguel Calmon começa a ficar pequeno. O Vírus também vai passar. A gente tem que entender que a vida é curta e que tem que deixar marcas para dizer para que veio ao mundo. Tem que correr riscos, não pode ficar só sonhando. Estou vivendo uma fase como essa. E me sinto muito feliz. O Vírus foi uma realização, nem dá para acreditar nisso.



Vírus: Como você encerraria esta entrevista?

Leandro: "Mais forte que todos os exércitos é o poder de uma ideia cujo tempo chegou". (Victor Hugo)

"Disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso, Minha metralhadora cheia de mágoas Eu sou um cara cansado de correr na direção contrária..."(Cazuza)

Por Márcio Melo
Setembro de 2005

Há exatos quatros anos estamos trazendo a nossa mensagem de luta e paz. Esse jornal é produzido para pessoas de espíritos livres. Não queremos ser inaugurais, nem originais, mesmo porque muitas pessoas já fizeram ou estão fazendo algo parecido em muitos lugares por aí.

Ninguém vai nos derrubar, porque as nossas bases são sólidas e somos teimosos e persistentes. Estamos aqui para subverter, para dizer não ao não, para ser do contra. O que nos alimenta é a liberdade, o inconformismo e a audácia. Nós estamos exercitando o nosso direito de contestar o status quo de forma criativa, lúdica e irreverente.

Não queremos jogar fora a oportunidade de discutir o papel de cada um(a) dentro dessa estrutura, dessa sociedade do "pão e circo", do consumismo, onde o TER vale mais do que o SER. Não queremos desperdiçar a chance de discutir de que forma podemos colaborar, efetivamente, para fortalecer a democracia e ampliar o espaço da cidadania.

Nós, professores, não podemos desperdiçar a chance de pensar formas de devolver ao nosso povo o conhecimento, que ele nos ajuda a produzir, financiando as nossas pesquisas com o pagamento de seus impostos; e não será com discursos teóricos e hipócritas que faremos isso!

Somos contra a hipocrisia; nosso grande discurso é contra a hipocrisia, que rola em todos os cantos e recantos desse imenso país, dessa imensa pizza na qual estão transformando o nosso país.

O nosso discurso pode estar errado (ou sendo mal interpretado, talvez), mas ele é honesto. Falamos com dignidade o que pensamos. Não achamos errado ganhar dinheiro; é digno. Só que a gente precisa ganhar dinheiro com a verdade que a gente faz, com honestidade.

Nós não queremos pouco: queremos ser úteis de alguma forma, queremos traduzir, queremos protestar. Nossas ideias não servem para alimentar gente tediosa, maledicente e não premiada pela vida. Sabemos que esse jornal, nesses quatro anos, tem servido de fonte de informação, lazer e cultura para os nossos leitores, além de politizar suas existências.

Somos críticos e, às vezes, até ácidos quando defendemos nossas ideias e/ou pontos de vista. Também aceitamos e queremos receber críticas, mas críticas sinceras e honestas. Não gostamos de pessoas que ficam atirando pelas costas, com covardia. Como também não gostamos de pessoas paradas, que ficam só observando o bonde passar, sem emitir nenhuma opinião. Como afirmou Frantz Fanon, "Todo espectador é covarde ou traidor".

Essas pessoas são nossas inimigas. E as armas que usamos são o fio da nossa palavra e a lança da ironia. O futuro nos absolverá.

Márcio Melo, O Pensador • Jacobina

Caso de Emergência!

Por Jesser oliveira
Setembro de 2005

Digo que não posso escrever outro assunto sem que tenha que relatar um acontecimento que creio é comum em Calmon Sin City (a Cidade do Pecado). Escrevo sobre a Santa Casa de Misericórdia de Miguel Calmon. Tive que levar um das minhas irmãs para a referida casa. Quando ao chegar lá, me deparo com uma recepcionista que avaliando o estado de saúde da minha irmã, chamaria ou não o médico de plantão. "Só atendemos em caso de urgência ou emergência. O que ela tem?"'.Disse a recepcionista. Digo para você leitor que o fato de alguém está sentido uma dor ou até mesmo uma alergia no braço, o caso da minha irmã, se caracteriza urgência ou emergência, por se tratar da saúde da população. Não sei quem ou o que pode ter qualificado uma recepcionista de hospital para saber se quem chega para ser atendido deve ou não passar para a mão de um médico.

Além desta celeuma, há no referido hospital uma nota para o público, que relata sobre a questão do atendimento. Para que todos saibam a população de Calmon Sin City é de 28.267 habitantes, porém, só pode ser atenda por dia, segundo a nota que se encontra no próprio hospital, 45 pessoas, coisa de 0,2% da população calmonense, um horror. Como justificativa a Santa Casa fala dos PSF, coisa que não justifica em nada, pelos seguintes motivos:

1. Não há PSF sufidentes em 'Calmon Sin Cyti'.
2. Os mesmos não atendem 24 horas por dia.
3. Não abrem nos fins de semana.

Há também no informativo o que chamo de arrogância da direção da Santa Casa, pois lá só se refere à penúria do médico, ao dizer que os mesmos ao atenderem além desta cota de 45 pessoas, seriam sacrificados, por não estarem recebendo por isto. Pergunto então: e a população está sendo o que com esta barbárie? E de que servirá o Mega Hospital novo? Só atenderá as mesma 45 pessoas por dia? Preferiria que fosse um trailer, ou mesmo uma tenda armada na praça, mas que possibilitasse atender todos os que lá chegassem. Como os PSF não fornecem condição de sustentar a demanda da população, esta cota que deve foi orientada pelo SUS como diz a nota do hospital, não pode continuar assim.

Ainda a Santa Casa, relata como defesa casos de pessoas que foram ao hospital para pedirem uma simples requisição de exame! Espero que seja entendido no que digo, mas pelo que sei ninguém vai ao hospital para passear, até mesmo aqui em Calmon Sin City, que não tem lugar para diversão, creio que quem vai pedi uma requisição para exame é porque precisa, até mesmo que seja uma requisição de exame de fazes. Quero ponderar minhas palavras devido ao fato de se dizer que o Vírus é oposição, agora neste caso sou mesmo, me oponho a este fato lamentoso e covarde que esta acontecendo com a saúde em Calmon Sin City. Lamentoso porque a população sofre com isto. Covarde porque ninguém se responsabiliza pelo que está acontecendo e pior, parece que nada está acontecendo.

Espero que esta nota chegue aos responsáveis, e que eles pensem em responder as perguntas, só que não dêem as respostas no microfone da Canabrava FM, pois lá é voz única, tudo é lindo e normal, para alguns da Canabrava Fm, parece que vivemos no tal paraíso, que dizem existir aqui. Abram os olhos, pois a cultura e a realidade de Calmon Sin City está mudando. Convido quem quer que seja, para uma entrevista no Vírus, ou mesmo enviei um e-mail para mim, é hora de jogarem limpo com todos, somos cidadãos calmonenses e não podemos, mas ser visto apenas como aqueles que é oposição, ou mesmo revoltados. Somos parte da população calmonense, temos leitores em todas as camadas sociais de Calmon Sin City e até fora daqui, somos lido por mais de 1000 pessoas, uma vez que somando o número de exemplares vendidos ao número de pessoas que lêem um só exemplar, chegar a quase 4.000 pessoas. Estou pronto para buscar respostas de quem as têm sobre o fato desta cota de atendimento e mais outras coisas referente à nota que se encontra no balcão da recepção do hospital. Deste já espero que ainda que achem que fui apenas critico do trabalho desenvolvido pela Santa Casa, que sou um cidadão que quer conhecer as necessidades de um hospital de rede pública numa cidade com Calmon Sin City. Miguel Calmon, 08 de setembro de 05.

Jesser oliveira, poeta.

A CAIXA E EU

Por Pedro Lampião
Setembro de 2005

Muito se tem comentado e muito se tem perguntado nesses dias que nos separam da última edição do VÍRUS, com referência ao concurso que Leandro falou que eu ganhei. Seguinte: A Caixa Econômica fez um concurso nacional de contos sobre a história cotidiana dos empregados e da empresa, para reunir os 50 melhores trabalhos em um livro sendo que os 10 melhores trabalhos seriam contemplados com 50 exemplares do livro e com uma viagem a Brasilia para participar da cerimônia de lançamento do livro. Eu mandei um texto para concorrer e qual não foi minha surpresa que dos quase trezentos trabalhos enviados o meu ficou entre os 10 primeiros e no dia 31/08 fui a Brasília para, no edifício matriz da CAIXA participar da solenidade de lançamento, fato esse que muito me honrou por poder elevar o nome de nossa cidade. Os livros devo estar recebendo em outubro e farei questão de presentear a biblioteca da igreja com um exemplar. Mas o texto, em homenagem ao VÍRUS e aos seus leitores que me incentivaram a escrever sempre e muito, estou mostrando em primeiríssima mão.

Falar da história da caixa para mim, é como falar de parte da história da minha vida e os fatos mais importantes que nela aconteceram, fatos estes muitas vezes relacionados com o cotidiano da CAIXA.

O grande sonho na verdade era entrar para a CAIXA e fazer parte dessa empresa maravilhosa que aprendi a amar e a respeitar, acima de tudo. O nascimento dos meus filhos tem ligação direta com a minha vida de economiário. Primeiro Vitor que veio numa fase em que eu tentava conciliar o trabalho no extinto Banco Económico (que Deus o tenha em paz!!) com a possibilidade de estudar alguma coisa para fazer um concurso que ninguém tinha certeza que iria acontecer pois as manobras do governo na época (segunda metade da década de 80) jogavam a CAIXA de um ministério para outro e ninguém de fato sabia a qual ministério a empresa estava ligada, até que apareceu Prisco Viana, então Ministro da Área Social, ou coisa que o valha e "mandou" que fosse realizado o concurso, concurso este que estive na agencia de Jacobina/BA, onde fui inscrito para receber de volta o dinheiro da inscrição; ainda bem que o colega responsável, se negou a faze-lo e graças a ele hoje estou aqui escrevendo sobre a nossa história. Carol veio numa fase em que saindo do Banco Econômico ingressei na CAIXA e hoje ao lembrar de quantos anos tenho de casa, lembro-me sempre que o tempo se confunde com o nascimento da minha filha. Mariana já veio no que pode se chamar, dos "tempos de vaca gorda", quando já empregado, com plano de saúde, pré-natal, clinica com pediatra e obstetra, coisas que os outros não tiveram.

Como podem perceber boa parte da minha vida se confunde com a história da CAIXA, mas, um fato me marcou muito, aconteceu na extinta Ag. IPIRÁ/BA (1052) quando, um belo dia, estando substituindo o gerente geral que estava de férias, senta à minha mesa um cliente propondo um financiamento para compra de um táxi, dentro dos planos do governo da época que pre\ia financiamentos para taxistas com abatimento do valor do IPI, o que reduzia em muito o valor do bem.

Ocorre que, imaginando que não iria conseguir fácil o financiamento, já veio propondo que, se acaso eu autorizasse ele conseguiria na prefeitura de uma cidade vizinha, um alvará em meu nome e eu poderia dessa forma trocar meu chevetinho da época, por um carro novo e muito mais barato!?

Imaginem a situação ao receber tal proposta no templo sagrado do meu trabalho, dentro das instalações de uma empresa onde só tinha aprendido coisas boas, como respeito, humildade, firmeza de caráter, ombridade moral, respeito ao bem público, firmeza na condução de uma equipe de trabalho, enfim, tudo de bom e saudável que um profissional pode esperar de uma instituição da magnitude da CAIXA.

Naquele momento, o filme de minha vida, passou em segundos na minha frente, pude rever todos os meus conceitos, tudo que aprendi com meus pais, tudo que vivenciei na minha vida, os ensinamentos da escola, a vivência familiar que não poderia ser mais saudável e honesta e, um "pilantranzinho" qualquer, estava ali, na minha frente, propondo que, por alguns "tostões", eu jogasse no lixo toda um história de vida começada na formação doméstica, fortalecida na vida profissional e agora ratificada e solidificada na experiência maravilhosa que sempre foi trabalhar na CAIXA. Nestas mesmas questões de segundos, refleti sobre o que responder àquela pessoa mas, a providencia divina que nunca nos abandona me fez ver que a melhor resposta é, às vezes, aquela que não se dá; e foi o que fiz. Pedi com educação que ele se levantasse da minha mesa, saísse e fizesse de conta que não tinha me falado nada, que eu faria de conta que não tinha ouvido nada também, e assim aconteceu.Se alguém vier a ler estas linhas publicadas em algum lugar, notará que eu e a CADXA muitas das vezes nos confundimos e paralelamente caminhamos, pois fiz dessa casa uma extensão da minha vida e da minha casa, e não me arrependo. Gostaria apenas de deixar registrado aqui essa experiência de vida profissional e pessoal que a CALXA me proporcionou.

Pedro Lampião
Calmonense com muito orgulho

Dos filhos desse solo nem sempre és mãe gentil, mas te amamos Brasil

Por Rejane Rios
Setembro de 2005

Não sei se posso falar nesse "Sete de Setembro" parabéns Brasil. Como podemos dar parabéns a um país onde milhares de crianças morrem de desnutrição e a falta de assistências médica? Podemos parabenizar um país que não promove eleições diretas para presidente e governadores há mais de vinte anos? Não devemos dar parabéns, mas devemos acreditar que estará entre as grandes potências do século XXI.

Basicamente este foi o teor do modesto discurso proferido no ano de 1981 no Colégio Municipal Nossa Senhora da Conceição na chamada "Semana da Pátria". No ano citado eu era uma adolescente, mas uma questionadora das desigualdades sociais, da má destribuição de renda, do analfabetismo e do poder avassalador da classe dominante que oprime e traz sob o jugo quase toda totalidade do nosso povo.

Após o término da minha fala percebi a cara de reprovação das pessoas presentes em especial de alguns professores.

O Brasil marcava o fim de um período repugnante da nossa história que foi a ditadura militar. Creio que este é o responsável pelo estado de barbárie cultural e emburrecimento em que se encontra nosso povo. Assim, fui taxada de comunista, subversiva e revoltada. Para refutar o havia sido pronunciado arrajaram um professor competente. Este não mencionou nem muito menos questionou o caos em que vivíamos, porém deixou bem claro que devíamos amar incondi-cionalmente a pátria amada.

Mais uma vez fui bombardeada por humilhações e porque não dizer tortura?

Se eu pudesse jamais teria voltada àquele lugar. Passei a abominar a escola e as pessoas que ali trabalhavam. Aquela época foi marcada pelo fechamento das companhias de teatro. As vozes estudantis foram sufocadas, muitas extintas. Até mesmo numa longínqua cidadezinha do Piemonte de Chapada Diamantina, em uma escola de 2o grau uma voz foi reprimida. Esse fato deixou sequelas marcantes em minha vida e muito contribuiu para fazer com que minha indignação e não aceitação dessa sociedade injusta aumentasse.

A ditadura passou, mas penso que até hoje não voltamos ainda ao estado de normalidade. Percebemos alunos apáticos, não questionam nada e odeiam questões que os façam pensar, analisar e aguçar o senso crítico.

Também não há movimento estudantil. A crítica fica reservada a poucos. Certa vez um aluno bradou que não gostava dos textos que trabalho porque só falam de política e dos problemas que envolvem a sociedade brasileira.

É lamentável, mas esta é a situação em que se encontram os jovens brasileiros.

"Maldito sistema" que castrou e moldou (alguns) para viverem sem propósito, a esmo, a se contentar com os VALES, com as migalhas que caem das mesas dos ditadores, da classe privilegiada desse país. Também o sistema educacional ensinava a sermos passivos e jamais ir de encontro aos senhores. Tudo imposto pela ditadura que assolou vidas inocentes porque eles não queriam e jamais vão querer a igualdade social para deixarmos de ser uma nação de miseráveis.

É incontestável! A escola trabalhou de tal forma para que fossemos o que hoje somos. Infelizmente ainda é perceptível aqueles ideais retrógrados por alguns professores. Portanto este estado de emburrecimento tende a se perpetuar por longos anos.

A própria Bíblia afirma que há tempo para todas as coisas. Hoje eu posso externar livremente a minha não aceitação a um sistema que satisfaz a poucos, aos puxa-sacos, pessoas que na maioria das vezes não possuem mérito para ocupar cargo algum. Mas se prestam a adular, sabujear, lisonjear, enfim babar ovo.

Alguns dias atrás o meu amigo Jesser Oliveira foi interceptado quanto as suas ideologias políticas. 0 questionador afirmou que devido seus ideais o mesmo iria puxar carroça o resto dos seus dias. O poeta respondeu que preferia empurrar uma carroça que lhe pertencia a puxar um saco que não era seu. Ao tomar conhecimento deste lamentável fato só posso afirmar que vivemos em um país onde pessoas se prestam a papeis ridículos em troca de favores políticos.

Um dia calaram minha porque eu era uma adolescente sem defesa e com poucos argumentos. Hoje, se vocês me certificarem de comunista e subversiva eu diria que prefiro fazer parte desse rol e está do lado do povo do que ser burguês, porque "a burguesia fede" como dizia o inesquecível Cazuza.

Rejane Rios

Finais Infelizes

Por Rutinaldo
Setembro de 2005

Chapeuzinho Vermelho em tempos modernos:

Era uma vez, na Terra da
Impunidade, um assessor político.
Um dia, sua mãe lhe disse:
-Meu fiho, vai levar umas propri..., quer dizer, uns dólares pra vovozinha.
-Pra quê, mamãe?
-É que a vovozinha cansou de fazer croché.
Entrou na Política, fez umas mara-cutaias e tá enrolada até o
pescoço..
-Mas, não é arriscado?
-Tem razão. A Receita Federal pode estar pelo caminho.
-E aí?
-Faz assim. Você esconde o dinheiro na cueca que vai dar tudo certo.
-Eu! E se me pegarem?
- Ah, se isso acontecer segue o manual.
- Que manual?
- Aquele manual... você sabe.
- O Manual Básico do Político Cara-de-Pau?
- Esse mesmo. Disponível nas livrarias de Brasília. Dá uma olhada no parágrafo 171.
- Deixa eu ver... peraí... Ah.encontrei! -
- Pois é, meu filho. Aí, diz claramente que.ao ser pego com a mão na botija," o representante do povo no seu legítimo direito de primeiro representar a si mesmo, deve dar uma desculpa esfarrapada. Fazer uma cara de espanto e berrar "Meu Deus, de quem é todo essa grana?!"
- E alguém vai acreditar?
- Claro que não. Mas sabe como é.

Na Terra da Impunidade, é bem melhor que no Mundo-Do-Faz-De-Conta. Aqui, malas de dinheiro andam caindo do céu; ninguém diz mentira, fala "inverdades". E o mais impressionante...
- O que é?
- Político corrupto nunca entra em cana.
Se entrar, é por uns dois dias.
Só pra fazer cena.
- Puxa, que deprimente, vovozinha!
- Bota deprimente nisso, netinho!
- E é sempre assim?
- Não. Às vezes, nem tudo acaba em pizza.

- Ah.quer dizer que o povo ainda pode ter esperança!
- Não é bem assim. Mas como os políticos são sempre legais e o povo abusa de tanta pizza, pode escolher outro prato.
-Qual?
-Marmelada.
Os leitores já perceberam que o texto acima nada tem a ver com a realidade. Imagina se uma história tão absurda pode acontecer na vida real!Claro que não. Um lugar tão bizarro como esse não pode existir no universo. Muito menos nas Histórias da Carochinha.ou traumatiza as crianças. É apenas fruto de uma cabeça extravagante e desocupada como a minha.

Um abraço, Rutinaldo.

Um encontro com o Diabo

Por Sheila Costa
Setembro de 2005

Desde muito criança a figura do diabo fazia parte do meu imaginário, não porque eu devote algo por ele, mas pelo fato de acreditar em Deus, partindo do princípio de que se acreditamos no bem devemos ter certeza da existência do mal. Quando criança a figura do diabo sempre me era apresentada pelos mais velhos como uma criatura horrenda, negra, com dentes pontudos ou podres, fedorento, magro, com unhas grandes e sujas, e um chifre assustador. Era o perfil do diabo de uma sociedade muito influenciada pelo preconceito, pois usavam deste estereotipo para nos manter afastados de todo ser humano que tivesse qualquer uma destas características, ou seja, quando crianças nos ensinam a não olhar para muitos daqueles que hoje adulta, visualizo nas periferias. O diabo da minha infância é aquele pai de família que a muito perdeu os dentes e a saúde, é aquele cara que sem acreditar em um futuro mais justo desistiu a muito da vaidade e até mesmo da própria vida, é aquele que fede porque precisa revirar o lixo para alimentar os filhos ou então para os mais radicais é aquele cara que bebe o dia inteiro e se encontra na sarjeta porque lá é o único lugar que não lhe cobra dignidade.

Mas se hoje em dia, sei que o diabo não é aquela figura que muitas vezes me assustou e se sei que ele existe da mesma maneira que o próprio Deus; surge então uma pergunta que a muito me inquieta: Onde posso hoje em dia encontrar o diabo? Esta é uma pergunta que para muitos vai soar como algo assustador, mas que para mim soa como uma ressalva que Deus joga nas nossas vidas para sabermos discernir o que é plano dele e o que não é.

No evangelho de Mateus existe um trecho em que Jesus repreende Pedro dizendo: "Afasta-te de mim, Satanás!" Foi este trecho especificamente que me ajudou a encontrar a resposta para minha pergunta, por duas razões:

1- Jesus não chama uma pessoa qualquer de Satanás. Não é Judas, o traidor, a quem Jesus se dirige, mas a Pedro o mesmo discípulo que Jesus escolheu para edificar a sua Igreja.
2- Pedro não era um homem que nós pudéssemos considerar do mal, muito pelo contrário, ele foi o homem que reconheceu perante todos a figura do Messias, quando questionado.

Com estas duas constatações a tentação é achar que Jesus poderia ter se enganado com Pedro, só que isto é impossível Jesus jamais se engana. O problema aqui é outro, Jesus tratou Pedro como satanás, porque Pedro não agiu segundo os planos de Deus, mas queria satisfazer as convenções humanas que acredita só em um Salvador que briga pelo poder e que estando no poder humilha e persegue os considerados inimigos, ou seja, Pedro representa aos olhos de Cristo todos aqueles que se dedicam a agradar as pretensões humanas, que buscam e brigam ardentemente pelo poder, para fazer dele sua arma indispensável; arma que busca destruir todos aqueles que não querem caminhar ao lado de interesses tão mesquinhos, arma usada contra aqueles que questionam, contra aqueles que pensam diferente do senso comum, arma que mira todos os que ousam ser livres.

É neste ponto que volto ao questionamento inicial: Onde podemos encontrar o diabo?

De repente, não é tão necessário que eu enumere os locais, digo-lhes apenas que agora tenho a certeza que ele não é tão feio como pintam, nem fica a espreita, ele provavelmente é muito bonito e sedutor, deve falar muito bem, deve ter a aparência de um cordeiro, e principalmente lhe faz acreditar que o caminho está na detenção do poder, está em olhar os outros do alto.

Faça um teste, olhe ao seu redor, observe cuidadosamente e aproveite analise seu comportamento também, se você não conhecer ninguém que se assemelhe a este diabo parabéns, caso contrário faça como Jesus e faça com que ele se afaste o mais rápido possível de você. Porque na realidade ele está mais próximo de cada um do que podemos imaginar cabe a nós lutar e resistir, a cidade já ajuda muito pois ela é Santa.

Obs: Parabéns ao Vírus pelos quatro anos, não é tão fácil, sendo um "jornalzinho", fazer tanto sucesso, estou feliz de poder comemorar junto com todos vocês.
Beijão no coração (Sheila Costa)

Caminhando com seus próprios pés.

Por Domingos Santos
Setembro de 2005

Esse é um desejo de muitas comunidades. Mas o poder político em nosso país não deixa, pois inventam um tipo de democracia disfarçada para controlar a comunidade e fundam associações de todo tipo, muitas só existem no papel, outras um vereador ou um puxa saco dos prefeitos chegam em determinada comunidade dizendo que com a tal da associação vai melhorar a suas vidas. Muitos caem no conto do vigário e passam a ser enganados,até pessoas de boa fé entram nessa. Isso só acontece por falta de informações. Não temos nada contra que a comunidade se organize e com seus próprios pés funde uma associação, o ruim é que o que está acontecendo em muitos municípios, políticos mau caráter estão aproveitando para conseguir controlar e manipular determinada comunidade, funda uma associação, consegue os recursos, e a comunidade acha que fica devendo favor por toda vida. Também essas associações só servem para deliberar e aprovar pacotes já prontos nos Conselhos Municipais. Às vezes nem olham ou fiscalizam se os recursos estão sendo bem aplicados. Há municípios em que o prefeito é o presidente do Conselho e é quem delibera e manipula os presidentes das famigeradas associações. Tenham cuidado! pois muita gente está brincado de fundar associações, chegam com conversas bonitas e fiadas querendo te enrolar. Saia fora! O único caminho certo é o que está sendo trilhado em outras regiões. Os agricultores cansados de ser enganados e enrolados com esses modelos de organizações atreladas aos políticos enganadores têm buscado outras alternativas. A exemplo da região de Jacobina aparece uma alternativa positiva o MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) movimento esse que busca a autonomia das comunidades rurais através do seu próprio protagonismo ou melhor com suas próprias pernas sem intermediários.

Sentimos que com esse modelo as comunidades podem se libertar de vez destes manipuladores coronéis que ao longo dos anos deita e rola através do erário público. A diferença de uma associação para o movimento MPA é que associações muitas foram fundadas pelos poder local ou por vereadores que manipulam atrelam ao poder, sem deixar a comunidade andar com suas próprias pernas e só servem o próprio local, tem uma diretoria que sempre é um cabo eleitoral de determinado político, tem um estatuto que lhe da todo poder, pra mudar só através de eleição, se erram não podem ser substituídos antes do tempo, a comunidade fica manipulada até completar seu mandato. O MPA é diferente não possui Presidente, aqui são coordenadores de base eleitos pela própria base. O movimento não é só de uma determinada comunidade aqui no caso existe os coordenadores de base no próprio local a coordenação municipal, coordenação regional, coordenação estadual e coordenação nacional. Esse modelo incomoda os coronéis porque não podem mais manipular a comunidade. Qualquer comunidade pode iniciar essa organização no seu município basta entrar em contato conosco pelo telefone (74) 3635-2034 ou pelo e-mail domingoscpttapi@gmail.com.br. deste modo vamos acabar de vez com essa aberração e manipulação destes que só tiram proveito dos nossos camponeses e camponesas e deixar que os mesmos andem com suas próprias pernas.

Domingos Antonio Lima Santos

MOSAICOS: A IMAGEM DA ELEGÂNCIA. O DIA DA LILINHA

Por Gil
Setembro de 2005

"E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade de recriação das coisas em imagens, e da vida em poesia". (Mário Quintana)

Poucas coisas nesta vida causam-me maior satisfação ao espírito do que uma agradável surpresa; não a surpresa preparada, mas a surpresa da brisa leve que refresca o corpo inesperadamente, a surpresa sutil e natural que nos chega de repente, do nada, para se tornar o tudo. Há duas semanas vivenciei a sensação descrita acima, foi num desses intervalos movimentados do Polivalente em que meu amigo Zé Marcos mis ura iogurte com café e chá, ele garante que é uma delícia! Mas a surpresa i;ão é essa, a surpresa é um livro de capa branca que ele me mostrou. Apalpei o livro, maravilhado. Impressionou-me a qualidade gráfica, o bom gosto do título, o desenho de capa magnífico a revelar uma outra faceta da obra de Zé Marcos, esse genial artista calmonense, enfim a cor branca do livro, tudo muito perfeito, restava saber o conteúdo... Indaguei: Quem é Lilinha Rios, Zé? - D. Lilinha, rapaz, você não conhece? Mãe de Maria Marta, da professora Míriam... Eu disse: Ah!... Não conheço, não...Zé emprestou-me o livro que devorei de uma sentada, como um faminto devora um pão; devorei-o, no entanto, com intensidade e violência e não com a elegância e a sensibilidade com que foi composto.

Confesso que antes de iniciar a leitura, por saber que se tratava de um livTo de memórias achei que seria uma leitura monótona, é exatamente aqui que se dá aquela surpresa maravilhosa de que falei no princípio desse texto: A elegância, a descrição e a modéstia desta dama (Lilinha Rios) reflete-se também no plano da escrita, porquanto, apesar de escrever um livro sobre sua vida, não se coloca em primeiro plano ocupando o centro das atenções do leitor, ao contrário, fornece-nos um cenário por onde circulam pessoas, costumes, crenças, lembranças, fa tos, sonhos e situações que marcaram sua bela existência, como se nos quisesse dizer que a sua vida está ali naquelas pessoas, situações, fatos, lembranças e sonhos... Surpreendeu-me, igualmente, sua grande sensibilidade para captar as coisas profundas da existência nos eventos mais simples e cotidianos e sua habilidade para escrever essas percepções filosóficas, encontradas somente nos espíritos mais elevados e nas personalidades mais nobres. Se o leitor acha que exagero, julgue por si mesmo o parágrafo que segue, cuja leitura causou-me verdadeiro êxtase: "Você olha o céu e vê uma nuvem branca, formando desenhos.

Segue-a com o olhar. O ar a empurra para outra direção enquanto lhe empresta outro formato. Aí você vê carneirinhos, anjos, homens, Deus, até que o vento carregando as nuvens começa a esculpir outras imagens. Será que não é isso que acontece com nossas vidas?" (pg. 92) Jamais me ocorrera que fora das rodas literárias e longe da "intelectualidade calmonense", no silêncio anónimo do hábito caseiro, haveria alguém capaz de prestar tal favor à literatura, à filosofia e à beleza como o fez Lilinha Rios nesses seus "Mosaicos". O livro merece uma análise mais acurada, porém dada a limitação deste espaço detenho-me a comentários avulsos e genéricos, motivados pelo impulso de leitor fascinado. Entretanto, é forçoso acrescentar que as letras calmonenses acolhem, com "Mosaicos", uma preciosa fonte de pesquisa da história da nossa gente, que abrange informações que vão desde o contexto político local e nacional do final da década de 50, passando pela ditadura militar até os nossos dias, além de registrar aspectos culturais relevantes do nosso povo, como culinária, cantigas de roda, figuras folclóricas, etc. Pelo visto, Lilinha Rios alcançou muito mais que pretendia sua elegante modéstia. O leitor que tiver o privilégio de contemplar esses "Mosaicos" encontrará momentos de rara beleza e encanto, como esse, onde a autora descreve a sua infância no Arroz: "Ali, meus ouvidos se deleitavam com a trilha sonora dos pássaros, com o som do chocalho e o mugido das vacas presas no curral, o murmúrio da correntezí das águas do rio em períodos de cheias e o cantar do galo nas madrugadas". (Pg-15). O leitor mais chegado à poesia poderá se deliciar com imagens poéticas que emolduram todo o livro (ou a vida?) de Lilinha, a exemplo dessa que o fecha com chave de ouro: "Anos iluminados, marcaram para sempre minha existência. Fecho os olhos e vejo a nau da minha vida singrando mares, se afastando da praia, em busca de outros portos, querendo atingir o infinito..." (pg-141). Lilinha saúdo-lhe, e ao seu livro, não com o respaldo dos críticos literários, mas com o encantamento de um leitor anónimo e empolgado. Obrigado pela surpresa do livro a mim e aos calmonenses proporcionada.

Gil é leitor e amante da elegância.



EXPEDIENTE

  • Jormélio Rios
  • Leandro Michel
  • Marcelino Pintho
  • Jesser Oliveira
  • Pedro Lampião