Ano: III / Nº 21 - Miguel Calmon, Abril de 2005

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!!!

Por Pedro Lampião
Abril de 2005

Sempre alardeado pela mídia, pelo povo nas ruas, pelos governantes, enfim por todo o nosso Brasil a afirmativa de que vivemos numa democracia, onde segundo nossa própria constituição afirma em seu artigo primeiro e parágrafo único que o poder: "... emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos...", me despertou o interesse em verificar se vivemos de fato nessa tão propalada democracia e, ainda mais, me despertou pesquisar e como diz a meninada, "viajar" por este tema, colocando paralelamente a democracia criada pelo grego Sólon e a ditadura do também grego Psístrato, esses dois "cabras" que quase 600 anos antes de Cristo experimentaram governar cada um seguindo um dos regimes citados. Ainda no preâmbulo desta escrita vou também trazer o caso "mete pra perto" e repassar aos caros leitores como descreveu um e outro o grande filólogo brasileiro Aurélio Buarque de Holanda: "Democracia - [Do. Gr. Demokratia] 1. governo do povo; soberania popular; democratismo; 2. Doutrina ou regime político baseado aos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder, ou seja, regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral ..." e Ditadura: 1. Forma de governo em que todos os poderes se enfeixam nas mãos dum individuo, dum grupo, duma assembleia, dum partido, duma classe... 2. Qualquer regime de governo já cerceia ou suprime as liberdades individuais." Quando Sólon, em 594 a.C. governou Atenas, na qualidade de Arconte, que era um tipo de primeiro ministro, tentou amenizar o sofrimento do povo ateniense que vinha sendo governado por um regime extremamente duro e excessivamente punitivo estabelecido anteriormente por Dracon criou a democracia.

Já naquela época a coisa nascia meio "capenga" pois o poder foi repartido em quatro divisões que pertenciam aos cidadãos, sendo que o mais rico ficava em uma, o menos rico em outra, o pobre numa terceira e o "lascado" na quarta e ainda tinha mais: estrangeiros, escravos e as mulheres não pertenciam a nenhuma das classes. Assim, meus caros leitores, nasceu a democracia, pelo menos a que estudamos nos livros de história. Depois de uma pequena definição de democracia e das citações de como Aurélio define ambas, queria discutir com vocês a explicação de qual é o regime de governo sob o qual vivemos em nosso país, em nosso estado e em nossa cidade, enfim, estamos sob o regi'me democrata ou vivemos numa ditadura? nome de apresentado (convenção), referendar, democracia a essa decisão, já tomada. Ai sim, já decidido tudo, outro grupo que se diz de oposição faz o mesmo e apresenta outro nome. Tudo escolhido, tudo decidido e acertado, os nomes já definidos e referendados pela assembleia que no caso se chama convenção, ai chega a hora do "Zé Povinho" entrar em cena e ir às ruas levantar bandeiras, participar de caminhadas e carreatas, discutir nas mesas de bar, desconhecer os amigos, xingar o vizinho, falar mal de um candidato e bem do outro e no dia marcado (pela assembleia) obrigatoriamente comparecer às urnas e exercer o "direito de dever" votar em quem já está previamente escolhido e o que é pior, de exercer este mesmo direito ou dever. Já nem sei mais o que é certo, deixando na urna um voto que foi comprado, seja pecuniariamente ou por favorecimentos anteriores. Portanto amigos que venham a ler as palavras desse escrito, eu particularmente tenho dúvidas a respeito do regime político em que vivemos pois sempre que procuro definir a democracia em consonância com o modo como são escolhidos nossos governantes, cada vez mais me deparo com um regime ditatorial mascarado e perverso, por demais opressor, sendo que, ainda encontro uma qualidade do ditador em relação ao democrata, não que eu ache que seja bom o regime ditatorial, ele, o ditador, não esconde de ninguém a sua qualidade.

Se eu estiver errado ou equivocado, gostaria que alguém me ajudasse a encontrar uma resposta, enviando-as, caso tenham, para Rua das Flores, 267 em Miguel Calmon ou pelo mail: pedro.g.neto@caixa.gov.br, por favor.

Pedro Lampião

Editorial

Por Leandro Michel
Abril de 2005

Nossa! Pareceu dessa vez que a coisa ia pegar, apenas pareceu. Ficamos esses meses acumulando veneno para disseminá-lo nessa e nas próximas edições. Somos um vírus insistente, muito insistente.

E a gente sabe que é essa insistência que incomoda. Torcem tanto pela nossa queda, tentam, tentam, mas olha a gente aí de novo. Aconteceram muitas coisas de dezembro pra cá em nossa cidade. Algumas foram tratadas nessa edição, outras, no seu devido tempo. Pouca coisa mudou no Vírus, alguns patrocinadores romperam com o jornal por achá-lo político-partidário, tendencioso.

Agradecemos o apoio durante esses anos e lamentamos a falta de sensibilidade democrática.

A justificativa dada não corresponde, pois o que na verdade incomoda são meus textos (um, em dez páginas). Se não querem ser criticados, não sejam vidraças.

Se não estão acostumados com as críticas, que se acostumem. Pois só um débil mental não perceberia as distorções desse poder. Até a próxima e tomara que seja breve.
Já temos um e-mail: jornal_virus@yahoo.com.br

Leandro Michel

Direto do Hospício

Por Jormélio Rios
Abril de 2005

Caros amigos, leitores e fãs do Vírus, estamos de volta depois de tantas festas, firmes e fortes prontos para mais uma batalha em 2005, já que não somos bem vistos na Cidade Santa. Saímos do período de incubação, afinal o tempo não para muito menos nós do Vírus.

Assassinaram a Gramática

Nunca perdi meu tempo com coisas que considero fúteis ou tediosas, mas de vez enquanto acidentes acontecem, estava eu em minha humilde residência quando sintonizei a rádio local e comecei a ouvir o pograma (palavra proferida pelo locutor ou radialista como preferirem), e comecei a pensar sobre o assunto, nunca ouvir falar, ou se quer ter ouvido dizer que exista dislexia na fala.

Então pensei no que os críticos falam a respeito do ensino público no Brasil de péssima qualidade, chequei a conclusão que não é o ensino que é ruim e sim os usuários desse ensino, lembro-me bem que minhas professoras de português nunca haviam falado dos poblema da seca no nordeste ou algo do tipo, nem que o pograma do Faustão fosse ruim.

Caros leitores do vírus imaginem o apresentador do Jornal Nacional noticiando o seguinte: Os brasileiro tem um serio poblema de visão, ou o pograma do governo o tão conhecido Fome Zero não atendi a maioria das pessoa carente.

Cara no mínimo seria bizarro, um apresentador como o William Bonner ou a Fátima Bernardes cometerem esse assassinato básico da língua portuguesa. Eu tento imaginar o que a professora de português diria; no mínimo ela tentaria o suicídio.

Agora resta saber se o distinto radialista,(que também têm outra insígnia) com toda sua eloquência diante do microfone vai a padaria e compra dez pão.Ou se ele compra um pães?

Gostaria de saber como é feito o controle de qualidade da Rádio, se é que existe controle de alguma coisa, porque o Pograma, também é ouvido por crianças e por pessoas que não tem tanta intimidade com a linguagem correta ou pelo menos o básico que deveria ser de conhecimento de todos, e essa forma de falar insistentemente repetida, pode vir a fazer parte do léxico de pessoas menos conhecedoras da forma correta de falar, "isso sim é um PROBLEMA".Quis abrir uma celeuma a respeito, mas como tudo acaba em pizza nessa republica de bananas até a próxima.

Jormélio Rios de Oliveira jormelio@yahoo.com.br, jornal_virus@yahoo.com.br

Jormélio é membro do Vírus, crítico e legista verbal.

Senhora do Destino

Por Jesser Oliveira
Abril de 2005

"Os episódios são breves nos dramas, mas por meio deles é que se alonga a epopeia".
Aristóteles.

Ganhei a aposta! Apostei que a Rede Globo, não ficaria fora do ar no último dia da novela das oito. Sério! Fiz uma aposta e ganhei, pois o acordo regia que valia o dia da reprise também. Assim no sábado, coincidência ou não a Rede Globo estava no ar. Vale dizer que para mim único apostador vitorioso do lance, foi divertido saber que o governo Humberto passou na sua primeira prova de fogo junto à população calmonense. E que a novela Senhora do Destino foi a de maior Ibope em toda a história da TV brasileira, então deixar as fãs e os fãs da Do Carmo sem ver o fim do drama, seria loucura mesmo.

Outra coisa que penso ter sido legal foi o fato de ter que reler Freud, para encontrar a resposta da seguinte pergunta (pois dizem que Freud explica) então: o que levou o drama global ser a novela mais assistida em todos os tempos? Será que foi devido ao casal de lésbicas que moralmente falando, levou nossa imoralidade sexual a sair da caverna, e o gosto pela fantasia de duas mulheres na cama nos fez passar tantos meses em frente à tela para curtimos o voyeurismo? É bom deixar registrado que a revista Play Boy sabendo do desejo sexual da visão traz este mês como capa a atriz Bárbara Borges, que era uma das lésbicas na novela. Ou será que foi por ter retratado a corrupção de um político e sua fogosa esposa? Ou pelo Giovane Frota e seu desportugues falado e ironizado como algo inócuo na "programação'' global? Ou a criança roubada? Ou a doença da ricaça? Ou a Nazaré que aparecia, mas não era a personagem principal? Para cada pergunta feita acima à resposta é NÃO! O que fez e faz o nosso povo ficar em frente de uma TV tanto tempo é uma cultura não dada a nós.Não assistimos TV à-toa! Não lemos, não vamos ao teatro por falta dinheiro e por não haver uma programação dada ao grande publico de peças teatrais públicas, não ouvimos ópera, não cruzamos o oceano para irmos a Paris, nem a Londres, ou mesmo New York. Apenas o ler já era suficiente. Fomos roubados deste o inicio da nossa mãe gentil, e colocado como filho de uma prostituta gentil (perdão o uso repetitivo do mesmo adjetivo). Então fomos educados para não conhecermos a verdade da nossa história, filho ilegítimo educado com a verdade da sua história é filho rebelde.

Hoje só temos como lazer o fútil. Até o único legado bom do EX-prefeito Caca foi tirado de nós. A TVE já não mais transmite seu sinal para Calmon City. A programação boa e educativa está sem localização em nosso território. E o que falar das revistas que não temos mais na Biblioteca Vilmar José de Castro? De uma hora para outra os EX-assinantes não renovaram mais as revista e ficamos sem: National Geographic, Caros Amigos, Carta Capital, Nossa História, Galileu. E tenho que falar das que está na pendura, pois logo acabará a assinatura. Será que ficaremos também sem as revistas? Veja, Isto É, Placar, Terra, Mundo Jovem, Ia Leitura, e muitas outras. Meu Deus. God forgive the American. É por isto que creio ter acertado o porquê assistimos tanta TV (Faustão, Gugu, Hebe, Ratinho, Malhação, Ana Maria Braga, etc) é a única coisa que é dada para nós. Infelizmente a TV é a única forma de lazer que a maioria dos brasileiros têm. Então ficamos meses em frente à tela para assistir uma novela, pois é verdadeira a canção: "agente não quer só comida / agente quer comida, diversão e arte / você tem fome de quê?". Eu de respostas! E a única que não consegui achar desde o inicio foi: Quem é esta tal de Senhora do Destino? Imagino que logo terei a resposta, pois abriram à fronteira e podemos ir para América. Agora devemos dizer assim:

Our Father which art in heaven,
Hallowed be thy name,
Thy kingdom come,
Thy will be done in earth,
As it is in heaven,
Give us this day our daily bread,
And forgive us our debts,
As we forgive our debtors,
And lead us not into temptation,
But deliver us from evil:
For thine is the kingdom,
And the power,
And the glory,
Forever, Amen.


"Os homens em seus espelhos mágicos, nada vêem além de si mesmo". Juninho Afram / Banda Oficina G3.

Jesser Oliveira é crítico de TV. jesseroli@pop.com.br

EXPEDIENTE

  • Jormélio Rios
  • Leandro Michel
  • Marcelino Pintho
  • Pedro Lampião

    Futebol e Cerveja

    Por Marcelino Pintho
    Abril de 2005

    Caro Humberto,

    Esse texto oferece uma degustação em grande estilo de dois tipos que povoam a imaginação do calmonense: futebol e cerveja. Na verdade, sei que você terá um trabalho hercúleo para manter, administrar e cumprir as promessas de campanha e que existem outras prioridades para a sua administração, mas cautela e caldo de galinha de capoeira não fazem mal a ninguém, né?! Pois vamos ao ponto.

    A Kaiser, depois de manter por 15 anos o "baixinho" como garoto propaganda ao som de " A Kaiser é uma grande cerveja, ninguém pode negar", trocou-o por uma diva loira e depois as propagandas de cerveja nunca mais foram as mesmas. Daí esse dilema eterno: Qual das loiras era a mais gostosa? Eu prefiro as duas...

    E por que raios estou falando de cerveja aqui? Porque me lembra futebol. Me lembra também o fiasco do futebol calmonense de uns dias pra cá, ainda mais agora que você é o titular da posição no lugar do baixinho.

    Na sua entrevista a esse conceituado e premiado jornal (sim, ganhamos o premio Jabuti de Literatura, categoria jornalismo independente, pela demora entre uma edição e outra) você se comprometeu, entre outras coisas: "Em relação ao esporte, queremos buscar junto ao governo do Estado, meios para investir nos campeonatos municipal e intermunicipal. Visando principalmente o futsal e o futebol de campo". Pois bem, escrevo aqui como um apaixonado pelo esporte, um torcedor que ainda vacila em explicar a regra do impedimento, só sabe gritar Goooool! e chamar o árbitro de ladrão! Não sou cartola, não sei como pensam o futebol, não manjo regra, nem tabela, não sou boleiro e nem bato baba, não ser no Play2 mas descobrir uma coisa inédita: no futebol: calendário bem feito e organização são essenciais! Eu sou um gênio!!!

    Eu sei a escalação da seleção de Hong Kong mas não consigo lembrar do último título da Seleção Calmonense de Futebol de Campo... É triste ver uma história tão bonita ir ralo abaixo. Quando lembro do último campeonato intermunicipal eu choro.

    Seis jogos um balaio de gois sofridos e apenas "umzinho" marcado, "umzinho"! Miguel Calmon virou saco de pancada, xacota intermunicipal. O vexame só não foi maior graças à campanha política que arrastava o povão pra comícios e desviou a atenção da massa indignada.

    Quantas vezes vemos a seleção jogar num ano? Seis, oito vezes? Aonde foram parar os amistosos que movimentavam o nosso domingão? Sugiro que haja um a cada quinze dias. Veja as vantagens dos amistosos: lazer aos domingos, dinheiro pro comércio, pra Liga, para os jogadores, preparação técnica, física e psicológica para campeonatos oficiais, laboratório de observação das pratas da casa, ritmo de jogo, observação de atletas de outras cidades que poderão fazer parte do elenco calmonense e por aí vai... Mas não, é sempre a mesma coisa todo ano, a mesma sequência de erros, igualzinho à Sessão da Tarde, o mesmo filme ad infinitum. Faltando um mês para o início do campeonato, reúne todo mundo, contrata jogadores "estrangeiros" às cegas só porque ouviu dizer que é bom lá no sertão, ajoelham, praguejam, acham um pra Judas, correm atrás de uma bola no "treino" que faltam cinco, seis jogadores por dia, e falta remédio, e falta chuteira e falta tudo, inclusive a invenção dos fenícios: dinheiro! O resto já sabemos, nocaute no primeiro round.

    Por falar em dinheiro, você deve chamar esses empresários e comerciantes que são parceiros da prefeitura para dividirem os ingredientes desse bolo, quero só ver quem tem orgulho de ser calça-curta. Favor esquecer esse negócio de jogador tá pedindo dinheiro na rua para ajudar o grupo, pagar uma cervejinha. Isso é obrigação da Liga e da Secretaria de Esportes, torcedor já paga ingresso e bebe cerveja e come pipoca.

    No mais é contratar gente comprometida, competente, experiente e que goste do que está fazendo. Isso é pra ontem, o tempo não brinca. Mãos à obra e chuteira na bola! Senão vamos voltar no tempo, Império Romano, jogaremos a meninada na arena para serem devorados pelos leões famintos e expiar a culpa sob a afirmativa cínica de que está sendo feita uma renovação.

    Marcelino Pintho.

    Entrevista

    Por Leandro Michel
    Abril de 2005

    Vírus Entrevista: Dr. Luiz

    Entrevista franca e aberta com Luiz Gonzaga Ramos Prisco. Figura controvertida, as vezes mal interpretada, mas de uma tranquilidade e 4 serenidade impar. Voz marcante opiniões seguras de um homem que certamente não estacionou no tempo.

    Vírus - Então, Dr. Luiz, o nosso começo de praxe: como foi sua infância, o inicio da sua vida até se tornar médico?

    Dr. Luiz- Sou Luiz Gonzaga Ramos Prisco, minha origem é lá do sudoeste a Bahia, nascido numa pequena cidade do interior chamada Rio de Contas.Cidade que faz parte da Chapada Diamantina. Ali passei os primeiros anos de minha infância e minha família se dividia entre Rio de Contas e Caetité. Caeitité por ser uma grande referência educacional,meus pais para lá se mudaram para que nós estudássemos. Lá estudei até o científico, me deslocando logo depois para Salvador para tentar o vestibular, espelhando-me na grande quantidade de pessoas de Caetité que se formavam. Em Caetité fiz o vestibular, fui feliz logo na primeira vez e ingressei na Ufba, formando-me em 1973. Pelo fato do interior ser mais promissor naquela época, era quase que unânime a ida de colegas para o interior. Fui para o sul da Bahia e trabalhei um tempo em Itaju, cidade que acabei conhecendo minha esposa Creuza. Depois me desloquei para o nordeste outra vez e movido por pessoas de M. Calmon, pessoas que conheci na época de estudante como, Liberato, Carlinhos Grassi (Chefinho), por circunstância de carência de médicos indicaram o meu nome, chegando aqui em 1979.

    Vírus - Quais as lembranças mais vivas da sua infância?

    Dr. Luiz - Apesar de ter saído de Rio de Contas com apenas 10 anos de idade, minhas lembranças realmente remontam de lá. Passeios com a família, passeios escolares, banhos de cachoeira, banhos de rio. Aquela coisa lúdica, meio que ingénua, grupinho de amigos jogando bola, liberdade. Isso realmente me traz muita saudade.

    Vírus - Luiz: Médico e músico. São pessoas diferentes?

    Dr. Luiz- Olha, a música se identifica muito com a medicina e vice-versa. A prática da medicina operacionalmente no interior você se envolve com o paciente, você vê muita coisa que choca, drásticas. Então o médico sempre procura uma derivação, e não são poucos os médicos que se dedicam à música. Acredito que ela apazigua, dá um relaxamento nas pessoas, aliviando aquelas impressões que você tem. Alen de ser um hobby também. Gosto muito de mexer com madeira, esse negócio de marcenaria, bater prego, consertar forro, cadeira. Agora veja bem, eu sou muito ensimesmado, em tudo que faço, seja na medicina ou música. Na própria medicina poderia te' expandido, ter ido pra fora, colocando em prática uma carreira como muitos colegas meus; fizeram e na música a mesma coisa, sou muito reprimido, eu toco mais pra mim. Acabo-me confinando entre a medicina e c música. Mas é bom esclarecei que eu sou muito mais apreciador da música do que propriamente um músico.

    Vírus - Você toca que tipo de instrumento?

    Dr. Luiz- Instrumento de corda, especialmente o violão e bandolim.

    Vírus - O que te atrai especificamente na música?

    Dr. Luiz- Quando você aprende a tocar, fica aquela vontade de buscar uma coisa a mais, uma evolução cada vez maior na arte de tocar, o timbre do instrumento também me atrai muito, fora as lembranças do violão nas serenatas, em tempos de lua, nas ruas, aquela coisa homérica mesmo, aquela convivência talvez tenha marcado.

    Vírus - Sua sensibilidade musical se estende além da música (Família, sociedade, trabalho)?

    Dr. Luiz- Paradoxalmente ela se estende, a minha imagem é uma, mas o meu modos operante é outro. Me preocupo muito com a medicina, com os problemas que acontecem nos hospitais. Agora isso nem sempre é mostrado porque você vai indo e acaba até certo ponto se acostumando com a miséria. Mas a medicina mexe muito com você, ela aguça demais a sua sensibilidade.

    Vírus - E o Dr. Luiz pai, esposo...

    Dr. Luiz- Considero que cumpri minhas obrigações como pai, afetivamente também fiz bem o meu papel. Me queixo apenas por ter que me "separar" dos meus filhos muito cedo para eles terem que ir estudar em Salvador e assim não poder transmitir, ingerir neles tudo aquilo que eu gostaria. Mas de qualquer modo dei a eles carinho, amor, condições para estudarem e tudo isso de uma forma desprendida, sem nenhuma restrição. Como esposo me considero razoável, dizem que quando um casamento dura muito,nunca é um casamento perfeito, ele vai se deteriorando. Mas com todos os revesses temos atravessado todas as barreiras. Mas, na média, de forma geral é positiva. Não é uma coisa maravilhosa, mas teve êxito.

    Vírus - Você é um homem romântico?

    Dr. Luiz- Por incrível que possa parecer sou romântico.

    Vírus - Você expressa seu romantismo?

    Dr. Luiz- Ai você foi num ponto realmente importante... Porque eu não expresso isso, não sou de me declarar romântico, de praticar aqueles atos de romantismo. Não me expresso não, mas no fundo sou romântico posso dizer a você sem medo de errar.

    Vírus - Qual o seu estilo de música favorito?

    Dr. Luiz- Gosto da MPB e de música de raízes. Gosto de música de choro, músicas românticas, sambas-canções. Agora não gosto dessas músicas modernas que estão presas à mídia. O carnaval, por exemplo, enquanto festa popular acabou e as músicas carnavalescas também, aquelas marchinha que retratavam o dia-a-dia do cidadão. Festa que o povo em massa participava, porque ele se identificava com aquelas marchinhas. Mas hoje tanto a festa como as músicas passaram a ser totalmente descaracterizadas. É uma música que vai servir de trampolim para "grandes figuras" da música brasileira, como as Ivetes Sangalos e Danielas da vida... Então o carnaval da serpentina, colombina, ali na rua, para todo mundo, aquele verdadeiro palco urbano não existe mais, hoje é só uma elite que participa do carnaval. Citei o carnaval mas é na música inteira que acontece, como podemos perceber esse tal de Jabá onde se paga para tocar tais músicas, e pior, se paga também para não tocar outras, aí fica essas porcarias descartáveis, repetitivas. E fica complicado porque a música hoje é comandada não pelo próprio músico mas por grupos que dizem ao artista até o que eles devem cantar, tocar.

    Vírus - Você é reconhecido em nossa cidade como um grande médico. Como você encara isso e a que você atribui esse reconhecimento?

    Dr. Luiz- Honestamente, a avaliação da população em geral de um médico é importante, porque se você encontrar um eco positivo é sinal que você prestou algum serviço e foi válido. Realmente posso dizer a você que não sou dos piores clínicos. Esse reconhecimento, acredito que é por conta da minha constância na cidade, pois todas as vezes que as pessoas me procuraram aqui me encontraram, são 25 anos numa cidade e tenho um certo bom senso de não meter a mão onde não devo.

    Vírus - Você têm se aperfeiçoado, participando de congressos, enfim?

    Dr. Luiz- Já frequentei muito congresso. E tenho frequentado, agora diminuir mais, porque você vai indo-vai-indo e é uma tendência natural diminuir. Hoje a informação médica está à flor da pele, você têm acesso a Internet, clica ali e pronto o que você deseja encontra, os Dvds de alguns congressos que você pode comprar, então não há necessidade de ir em muitos congressos, principalmente hoje que muitos congressos são patrocinados por laboratórios de modo geral multinacionais reduzindo a parte científica do congresso, transformando-o em um verdadeiro show-room, muita mídia. Mas continuo lendo muito.

    Vírus - Porque é tão difícil cuidar da saúde publica?

    Dr. Luiz- Isso aí é uma série de fatores. Falta de investimento, as verbas do governo são curtas, essas distorções que existem aí na cúpula do governo que não liberam as verbas adequadamente, além desse resquício de um modelo antigo de dirigir as cidades, os resquícios do coronelismo, Pessoas despreparadas para fazer aquilo, improbidade administrativa, cotas de atendimento que são trocadas por voto, isso tudo acaba provocando um sucateamento do atendimento. E acima de tudo a falta de fiscalização, porque até ideias e projetos bons do Governo federal existem, mas é como eu disse...

    Vírus - O que melhorou na saúde publica?

    Dr. Luiz- Um acesso muito mais fácil, por incrível que pareça, ao serviço de saúde. O paciente tem hoje mais facilidade para chegar ao médico. As grandes epidemias como a cólera, doença de chagas, já se sente uma melhora,hoje elas já foram mais contidas. A construção dos PSF (Programa de Saúde Familiar) um centro de assistência a saúde onde se busca levar o indivíduo desde a sua infância até'a idade adulta numa vivência boa, saudável, casa pra morar, luz, água, escola, alimentação. Então o PSF tem essa meta de um determinado bairro ficar sendo cuidado por uma equipe profissional (Médicos, Odontólogos, Psicólogos, Enfermeiras) passando a ter intimidade com o bairro, inclusive conhecendo seus problemas, mudando os hábitos da população e tirando-a das portas dos hospitais, porque porta de hospital não dá saúde a ninguém.

    Vírus - O PSF tem funcionado em M. Calmon?

    Dr. Luiz- Olha, o PSF tem funcionado em M. Calmon da mesma maneira que funciona em qualquer cidade onde o SUS não é pleno. Porque aqui é apenas um apêndice do SUS. Os PSF de cidades pequenas resolvem em parte o problema mas já tem aquelas benesses que um médico tem no interior de chegar a hora que quer no trabalho, um dia vai no outro não vai, e não existe aquela auditoria (Fiscalização) porque na verdade o SUS não poderia funcionar sem auditoria. As auditorias que existem deixam muito a desejar, E outra coisa, pensar que um hospitalzinho desse em M. Calmon não tem distorção é muita ingenuidade, pois isso é geral.

    Vírus - O que você acha da medicina alternativa e do aborto?

    Dr. Luiz- Algumas facetas da medicina alternativa são válidas e eu lhe digo isso porque eu tenho um curso de homeopatia. A homeopatia é uma outra modalidade de se tratar o paciente, totalmente fora do padrão da medicina convencional. Agora são poucas as alternativas na medicina que são reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina. As que atualmente são reconhecidas são a homeopatia e acumpultura. Temos que entender que muita coisa da medicina alternativa surge muito rápido enquanto que a medicina tradicional ela é milenar. A falta de comprovação científica leva a medicina tradicional rechaçar a medicina alternativa.

    Vírus - E o aborto?

    Dr. Luiz- Como você já sabe ele é permitido em vários países. No Brasil ele só é permitido naquela circunstancia quando a mulher corre risco de vida. Agora o aborto é uma coisa muito sórdida aqui no Brasil, porque em nosso meio ele é praticado largamente, mas é proibido. A pessoa chega na farmácia compra o remédio na clandestinidade, toma aquilo sem o médico passar, começa a fazer o aborto em casa, vai pro hospital e o médico termina o serviço. Eu pessoalmente apesar de ser católico, acho que o aborto não deveria ser limitado somente nessas circunstâncias de risco de vida da mãe, ele deveria ser considerado caso a caso. Pra você ter uma ideia até um feto que você constata que é anencéfalo não está enquadrado na lei. Em casos necessários deveria ter uma assistência médica pra se praticar com técnica em plenas condições.

    Vírus - Como você enxerga a morte?

    Dr. Luiz- Encaro a morte como uma fatalidade, como uma coisa inexorável. Apesar do impacto a encaro com uma coisa muito natural. Ela é um item inevitável no qual acredito que as pessoas precisam se preparar para tal, porque ela é uma realidade.

    Vírus - Por que a juventude atual vive sem perspectiva, pessimista, caracterizada também por esse vazio ideológico?

    Dr. Luiz- Olha, sem dúvida alguma essa situação é fruto de uma falta enorme de oportunidades, porque uma juventude só pode ser saudável, ir pra frente se você oferecer oportunidade pra ela. Essa é uma situação preocupante, pois o jovem acaba procurando alternativas e essas alternativas podem ser desastrosas (O caminho das drogas de modo geral). O jovem deve ser olhado com muito mais preocupação pelo governo.

    Vírus - Você tem alguma referência ideológica?

    Dr. Luiz- Quando jovem admirava muito Che Guevara, Fidel Castro por exemplo era uma referência muito grande pra mim por ter combatido o capitalismo e introduzido ali em Cuba o socialismo. Atualmente já não o admiro tanto porque as coisas foram caminhada pra um radicalismo, ditadura. Atualmente uma referência ideológica que tenho e admiro é o próprio Lula, ter saído de onde saiu e ter convivido com os mais sérios desafios sociais, depois se transformar insistentemente num Presidente da República é inegável que sua performance é das mais belas.

    Vírus- Até onde é verdade essa história de que você é um médico bruto?

    Dr. Luiz- Isso aí é puro mito, porque quando a pessoa é bruta até ela reconhece. Certamente essa é uma imagem pré-formada que com certeza partiu de alguma assoa que não tem muita capacidade de análise. Posso até ser fisicamente meio deformado, chegado a Corcunda de Notredame, mas te confesso que brutalidade realmente não, pelo contrário. Entenda bem, você está atendendo no hospital, com aquele atendimento inadequado, aquela demanda fictícia que tem na porta do hospital, as pessoas ficam ali desde quatro horas da manhã esperando o médico chegar para serem atendidas. Então você trabalhar num lugar desse, aí sim as pessoas que estão ali é que são bastante brutas e você conviver com isso não vai estar num lado muito bem-humorado. É importante entender que essa situação não é saudável nem para o médico nem para os pacientes. As pessoas têm ao meu respeito uma falsa impressão.

    Vírus - Quais são as suas expectativas em relação à nova diretoria do hospital? Qual seria o maior desafio a ser enfrentado?

    Dr. Luiz - Sobre essa nova diretoria eu diria o seguinte: ela vai enfrentar os desafios com a maior honestidade, como fizeram outras diretorias. Uma pessoa capaz de lidar com as estruturas do hospital precisa ter qualificações. A atual administração tem suas limitações, mas se sobressai em outros setores. Por ser o mandatário da provedoria, tenco muita experiência no comércio, ele tem muita facilidade em enfrentar essa obra, ele não soube qualificar o que deveria sor feito, talvez tivesse exagerado um pouco na construção de um hospital tão grande. Tenho uma grande esperança que possa funcionar de acordo com os propósitos administrativos.No momento atual existem muitas pessoas capazes de exercer a provedoria, mas tem que haver um preparo antes, ela não pode ser entregue imediatamente. Scb pena de algumas coisas que estão aí projetadas de não se realizaram. Eu não tenho muita queixa da provedoria, ela abriu uin leque muito grande para ncs médicos. Um grande desafio é manter uma equipe médica especializada porque os médicc s estão muito acomodados aqui na região, pra um médico sair de um local distante e vir morar em Miguel Calmon é muito difícil. Quando você mantém um médico morando na cidade é muito mais vantajoso. Um fator positivo é o seguinte: nunca se trabalhou tanto com tantos médicos no hospital como hoje. A equipe ten feito o possível, inclusive con anúncios em alguns jornais abrindo espaço para novas contratações. Na minha opinião o grande desafio é manter uma equipe trabalhando diuturnamento na cidade. Tenho ótimas expectativas para com a nova administração.

    Vírus - De que forma o hospital e a prefeitura atuam em parceria para o benefício da saúdo calmonense?

    Dr. Luiz- A prefeitura tem o:s órgãos que estão sob sua gerência, municipalizados. Tem também os programas através do um Piso de Atenção Básica ( uma verba recebida para os programas de saúde na área preventiva), então têm programas de intervenção artéria', assistência aos diabéticos, serviço de câncer do colo uterino, assistência maternal infantil, pré-natal. O hospital, curiosamente, não é um órgão público. Ele pertence a uma associação, é como se fosse uma ONG (Organização Não- Governamental), que tem um cunho social. É um hospital para doentes. Não trabalha com o setor de prevenção, vigilância sanitária. Porque a crítica à saúde é preciso ser canalizada para outras derivações, por exemplo, como está a vigilância sanitária dos mercados, nas lanchonetes, nos bares, bairros... Isso tudo é saúde pública. O que me preocupa, por exemplo, como é que está a matança dos animais, como é feita a fiscalização... Judo isso é encargo da prefeitura, entendeu? Como a demanda é enorme, o hospital acaba atendendo casos que não dizem respeito a ele. O hospital tem um cadastro no SUS que é a sua ficha. Tá lá o critério populacional usado pelo governo para conferir ao hospital as classes de atendimento. Então, em média, o número de atendimento seria de 45 pessoas. Em urgência, por este critério, se você atender 80, não passa pelo programa, pois é tudo informatizado em Salvador. O excedente fica por conta do médico que não recebe nada por esse excedente. Aí a importância dos PSFs, que diminuem em muito esse número. A prefeitura participa com essa ajuda. Como a exemplo dos exames que paga ao hospital para fazer.É um pedido nosso à prefeitura, que encare essa problemática do número excedente de consultas.

    Vírus - Quais são as principais dificuldades do hospital?

    Dr. Luiz - Hoje seria uma ampliação desse cadastro hospitalar, oferecer mais alternativas à população e a vistoria reconhecer que o hospital tem direito de receber mais cotas de atendimento e novamente enfatizar os aspectos do aumento do efetivo médico, através de uma co-participação com o governo municipal.

    Vírus - Sobre o índice de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis) tem aumentado muito, procede?

    Dr. Luiz - O índice que parece ter aumentado, na minha opinião,é a maior procura ao médico. Hoje todo jovem vai ao Posto de Saúde e ao hospital e quando tem algum problema dessa natureza, vai lá, se consulta. Então você tem esse leque de opções de assistência. A julgar também pela promiscuidade que temos atualmente, as DSTs têm se alastrado em todos os lugares. Em Miguel Calmon não há uma incidência muito grande, preocupante. Não tenho dados específicos, mas creio que está dentro dos padrões aceitáveis.

    Vírus - O senhor tem algum conhecimento de óbitos ocorridos antes do internamento, por força da lentidão ou burocracia hospitalar?

    Dr. Luiz - Honestamente, é uma situação das mais raras que você possa imaginar nesse hospital. Tem aquele célebre caso de um cidadão que morreu na porta do hospital a anos atrás, que claramente teve um infarto daqueles que não teria reversibilidade pois o hospital não detêm uma unidade especializada nestes casos, nem pessoas treinadas para tal acontecimento.

    Vírus - Em qual situação um médico deve indicar um paciente para ir à Salvador?

    Dr. Luiz - O paciente para ser transferido para outro hospital, ele tem que ter uma perspectiva de resolutividade de seu problema. Transferir um paciente apenas para afastar um caso complicado de você não faz sentido. Só trará transtornos ao paciente. Casos como estes, encaminhar por encaminhar, é incorreto, tem que ser baseado em rígidos critérios médicos e não por pressão de amigos, vizinhos...

    Vírus - Você como democrata deve ser favorável à alternância do poder. Será que essa alternância é positiva em todos os aspectos? Como o senhor encara as repetidas reeleições do atual provedor da Santa Casa?

    Dr. Luiz - Esse é um fato inegável da militância do atual provedor por sucessivas gestões. O que eu ouço das pessoas e dos próprios componentes da instituição é que eles não são muito a favor disso, eles estão ali, têm suas queixas. Inclusive colocam entraves diante das atividades paralelas que ele têm. Do ponto de vista financeiro, vocês podem ter certeza que ele não tem nenhuma vantagem. O Estatuto da Santa Casa reza que a pessoa que está à frente não pode ter qualquer vantagem para exercer aquela função. A perenização no poder não é boa para ninguém. A renovação é sempre bem vinda. Pra você passar isso pra outra pessoa existe uma eleição. No grupo há uma democracia de lançar candidatos, uma chapa. O Estatuto reza algumas restrições que não concordo muito, como por exemplo, que um parente pode indicar outro como sócio.cada sócio pode indicar um parente... São situações que vêm de longa data. O atual provedor tem knowhow, sabe resolver e administrar os problemas da Santa Casa e essa alternância acabará acontecendo naturalmente.

    Vírus - Pra encerrar essa conversa franca e esclarecedora, gostaríamos que você nos respondesse brevemente: Dr. Luiz por Dr. Luiz.

    Dr. Luiz - Sou uma pessoa cheia de sonhos, caseiro, feliz com o que tenho, comedido e com todos os defeitos comuns. Sou uma pessoa simples, sem ambições, que gosta das coisas em seu lugar, às vezes perfeccionista, que sofre por isso, mas sou feliz assim. Sou um altruísta.

    A carnavalização do Eu, e o Negócio Popstar

    Por Jesser Oliveira
    Abril de 2005

    A peça é Júlio César. O autor, o dramaturgo inglês Willian Shakespeare. O enredo, uma trama de traição e morte, junto com um povo que apenas assiste tudo passar frente a seus olhos, e admira a grande virada que acontece na trama shakespeariana. Para não ter que ficar apenas, numa peça escrita entre o século XVI e XVII fico pensando como as coisas são bem próximas da verdade. A vida imita a arte, ou esta é que imita aquela. Penso que a vida tenta imitar a arte, e esta tende a fincar suas cordas de ironia e realidade na própria existência da vida do ser humano. Assim por ter um jeito poético, Júlio César, de Shakespeare, deixa de ser apenas uma peça teatral e leva a vida dos personagens para uma realidade vivida por nós nos últimos cinco anos, o realyt show, Big Brother Brasil, que vem com um enredo próprio dessas tramas cotidianas, de "ser ou não ser" coisa shakespeariana novamente, desta vez, Hamlet, e que leva-nos a pensar que a vida pode ser apenas uma janela de entrar e sair de atitudes para nos fazer popstar. Conjugar o verbo, do anonimato é perjúrio para quem vive neste século, então o que mais vem como certo, é a onda de ser celebridade e/ou subcelebridade. 0 que na verdade eu quero dizer é que a cultura calmonense parece demais com essa ideia de "ser ou não ser" ou como se eu tenho que ser correto na peça citada, Júlio César - et tu, Brute? Quando este encrava a adaga no César que na ocasião era coroado rei.

    Com certeza Miguel Calmon já tem uma nova data de coração para um rei qualquer. Estou falando do reinado de Momo, que parece ter saído do caixão e toma as ruas e clubes novamente, o que é imprevisto são os modelos que essa festa vai tomando uma vez que revivida, ou seja, reviver o carnaval de marchinhas em Miguel Calmon, deixa-nos com cara de cidade do interior e não nos permite ter um sonho capitalista de carnaval, apenas um carnaval romântico, como os dramas shakesperianos, pois nos carnavais nosso, temos a "fadinha" toda bonitinha que apenas seduz pela beleza e encanto e que não produz nenhuma mágica de mudança social, com o seu poder de bondade.

    Além de encontrarmos também os "anjinhos" que frequentam esses lugares também e que não socorrem os excluídos, pelo contrário apenas salva a sua pele, vale lembrar do anjo Big Brother, que é salvo do paredão, assim o nosso carnaval pede passagem e como o universo é equilibrado, temos os "diabinhos" ou "dráculas" e outros seres do mal, que assustam as pobres crianças nestes dias de reinado de Momo, tudo isso com a aprovação do rei. Posso até dizer que carnaval com marchinhas: "ala la ô ô ai que calor ô ô..." é bem mais nefasto dos que os que têm trios com cordas em volta e as pipocas ao lado, pois lá a sociedade se divide por si só, e no nosso a sociedade se mistura, "bruxinhas e fadinhas" se juntam e brincam como se fossem irmãs e tudo bem, nada para acusar ninguém e tudo para festejar, assim segue a humanidade e até outro dia, tenho que ir mesmo, pois "tá chegando a hora o dia já vem raiando meu bem".

    Fico assim sem saber se leio Shakespeare e continuo crendo em nele apenas como escritor ou profeta, ou se faço minha inscrição no próximo Big Brother Brasil, quem sabe? Ou apenas espero o próximo carnaval chegar, pois nele vale carnavalizar o eu tornando-se rei, fada, anjo, outros mais, assim fico perdendo tempo nesse programa Brasil. Chega! "Eu tenho que ir embora".

    Jesser Oliveira é poeta e adora ler Shakespeare.

    Um outro mundo é possível?

    Por Pe. Paolo Cugini
    Abril de 2005

    No mundo em que vivemos torna-se difícil responder de urna forma positiva a esta pergunta. Milhões de pessoas cada dia lutam por um pedacinho de pão, os direitos humanos básicos desrespeitados, políticos corruptos e sem escrúpulos em cada lado do mundo, guerras, violências: quem é que aguenta um mundo desses?

    Apesar da realidade ser cada dia espantosamente pior, existem motivos que nos devem empurrar para a esperança. Um destes é sem duvida alguma o Fórum Social Mundial, que se realizou na cidade de Porto Alegre nos dias 26-31 de janeiro deste ano e ao qual participei. Mais de cento e cinquenta mil pessoas de cerca cinto e vinte paises do mundo todo se encontraram para discutir sobre as experiências, iniciativas que estão sendo realizadas, para oferecer um rumo mais humano e solidário para o nosso mundo. Foi, então, fantástico participar de encontros, palestras cujo objetivo não era destruir o inimigo, mas pensar de forma positiva partilhando os resultados até agora conseguidos nos campos da economia solidária, direitos humanos, ecologia, políticas participativas, programas de erradicação da fome e do trabalho infantil entre outros. Sendo que, era praticamente impossível acompanhar tudo aquilo que acontecia cada dia dentro do Fórum (mais de duzentas palestras em oito setores diferentes, além de eventos culturais e musicais espalhados em todos os cantos da cidade), decidi de concentrar a minha atenção no setor "F", aonde o assunto tratado era os movimentos sociais. Escutar o testemunho dos jovens venezuelanos e mexicanos narrando as formas de lutas organizadas, para contrastar o poder económico neoliberal ou, do outro lado do mundo, os vietnamitas e os árabes dizendo abertamente os desastres que o "império" americano está provocando nestes paises foi impressionante. De um lado, mais uma vez,me dei conta de como o poder económico e político tem o controle dos meios de comunicação de massa, distorcendo assim a realidade, para melhor manipular as massas desinformadas.

    Do outro, percebi a necessidade vital para produzir uma contra-informação, que consiga oferecer uma visão da realidade diferente e, sem duvida mais coerente com os dados da realidade social e política.

    Além disso, o dado mais contundente é a tomada de consciência que, o fenómeno da desinformação, não é mais um problema que afeta apenas os paises do assim chamado terceiro mundo ou em desenvolvimento. Uma luta acirradissima está sendo travada nos paises do primeiro mundo, para confundir as cabeças das pessoas. Prova disso é a reeleição como presidente dos Estados Unidos de George W. Bush, depois de ter espalhado guerras e violências nos últimos quatro anos, em todos os cantos do mundo.

    Interessante foi ver a quantidade de movimentos e de organizações não governativas que estão surgindo nomundo todo, para resistir ao pensamento único que o poder económico neoliberal está querendo impor. Se dentro do Fórum Social Mundial ouve uma convergência de ideias, foi exatamente na admissão que o mundo não pode mais continuar desta forma: é urgente uma alternativa! O planeta terra não está mais aguentando tanta poluição, tanto desrespeito. Por esta razão foi apresentada a "Carta da terra" que contem valores e princípios para um futuro sustentável (o texto desta "Carta" encontrase na Biblioteca VJ. de Castro).

    Querido leitor do Vírus está na hora de arregaçar as mangas. Um mundo mais justo, solidário e pacifico é possível somente se você entrar nessa. Então, se quiser mesmo, procure o diretor da associação "Moringa", cuja sede encufta-se nos locais da fantástica biblioteca "Vilmar José de Castro".

    Pe. Paolo Cugini (pacugini@yahooucamJfr).

    Meide in Calmon

    Por Leandro Michel
    Abril de 2005

    Dissimulação, balela, sem-vergonhice, escárnio, safadeza, pilantragem, engodo, vilania, canalhice, baixeza, mentira, patifaria, palhaçada... Tudo isso e muito mais compõe o cenário social e político calmonense, nenhuma novidade, portanto, apenas constatações de um mesmismo, de uma política que se perpetua favorecendo direta e indiretamente o mesmo grupo há décadas. As oportunidades de mudanças surgem naturalmente, mas não sinalizam rupturas no quadro social e político, apenas confirmam diariamente que nesse jogo pelo poder e pela sobrevivência o que menos interessa é o outro, o que importa é o eu (império) acima de tudo e esmagando a "todos".

    Sua ótica medíocre permitiu sem esforço algum a saída do padre Paolo (maior referência social, política e religiosa de Miguel Calmon), homem capaz de fazer revoluções em prol dos fracos e oprimidos e que por sua postura, fizeram pouco caso de sua saída. A biblioteca, seu maior legado cultural, já vive momentos complicados: assinatura de revistas que não estão sendo renovadas, não se cogita a compra de novos livros, dois meses de salários atrasados dos funcionários, corremos o risco de vê-la perder o encanto por falta de sensibilidade dos que nos governam.

    Em contra-partida viabilizaram rapidamente o emprego dos verea-dores que perderam as eleições. No momento nem todos os fracassados já foram empregados, mas não tardará e logo, logo estarão anexados em seus devidos lugares e fazendo servilmente o papel das abelhinhas operárias. Ou vocês duvidí É inegávl a dificuldade de se gerar emprego no contexto atual, mas até quando essas oportunidades aparecem, eles friamente acabam mantendo o jogo do poder (favorecendo seus subservientes, popularmente conhecidos como puxa-sacos). No período de matrícula, houve a necessidade de mão-de-obra nos colégios Polivalente e Nossa Senhora da Conceição. As pessoas contratadas foram tão somente professores que já trabalhavam nas instituições citadas, aproveitaram para descolar uma grana extra, enquanto centenas, milhares de pessoas desempregadas foram mais uma vez excluídas"desse seu direito. (Obs: justificativas serão dadas, mas como sempre, esfarrapadas).

    Quando nesse mar de lamas, nosso barco já sem rumo, sem muitas esperanças mudar, à deriva, acaba naufragando pela força das circunstâncias.

    Esse desejo de se dar bem, tirar proveito das situações, lucrar, lucrar, lucrar, mesmo que para isso se perca a dignidade porque hoje mais do que nunca o ser humano entrega-se plenamente a ótica do capitalismo, o fundamental é ter, existir, e não ser. O homem se esquece de sua alma.

    O último episódio apresentado pelos atores da Câmara de Vereadores de Miguel Calmon revelou a capacidade tragicômica dessa entidade e mais uma vez, nesse seu jogo pelo poder, desrespeitou a vontade popular, mantendo na Câmara um candidato que não foi aprovado pelos critérios da "democracia". Tanto alarde, tantos fogos, tanto engodo! A que ponto o homem chega para se manter no poder! Como ele é capaz de se humilhar! A partir de agora poderemos chamá-lo de "o vereador que não foi". Mas as perguntas que me faço são: Por que Meide abriu mão de seu pleito? Ela se vendeu? Por que se vendeu? Por quanto, se vendeu? Cinquenta mil, cem mil, um milhão? Será que ela estava realmente endividada? Enfiou os pés pelas mãos? Devia a cigano, ao banco ou a algum outro agiota? Por que pagar um preço tão alto e passar a ser taxada disso ou daquilo? Coitada! Entrou no cenário político calmonense de forma tão grandiosa (a vereadora mais bem votada da história política calmonense) e saiu de forma tão melancólica!

    Enquanto isso, o Império continua firme, sem sinais de problemas. Eles, em seus salões vão estar rindo disso tudo. Eu continuarei sendo taxado de louco, revoltado, comunista. Lembra-me vagamente de Roma... Mas onde estão e o que fazem agora os bárbaros, os hunos.os godos, os visigodos, os alanos, os vândalos.os ostrogodos, os mongóis? Quem se candidata a Átila?

    Leandro Michel.

    Início do fim

    Por Bárbara Accioly
    Abril de 2005

    Um dia comum, uma vida mais ainda. Passos longos e sem um destino certo. Cabeça baixa, olhos úmidos. Um caminho rotineiro, já gravado. A tristeza de uma criança solitária. Dos lados, seres desconhecidos, inanimados. O canto de um pássaro desperta a atenção; isso era raro. Uma casinha desbotada de porta grande. Janelas altas e distantes. Jardins mal cuidados, plantas mortas, flores secas. Sensação de completo abandono. O portão se abre e em seguida se fecha. A porta se abre, também se fecha logo. Uma escada circular muito imponente, os passos, uma pessoa sobe.

    Um longo corredor, várias portas. Uma abertura. Alguém entra. Atira uma capa numa poltrona. Senta-se na borda da cama. Olha-se no espelho. Ali está a imagem que conhece tão bem. Admira-se. Estranha-se. Não parece ser a mesma pessoa de algumas horas atrás. Um pensamento distante, olhos desatentos e sem vida. Uma coisa mudou e a vida seguiu o ritmo. Há uma ruga a mais. A solidão pega de surpresa. Rende-o, tortura-o. Tão pouco tempo; tanto a dizer, tanto a calar...

    Bárbara Laís Silva Accioly.

    L P B

    Por Genildo Fernandes
    Abril de 2005

    Antes que você sinta aversão te tranquilizo: não é mais um partido político! Eu te explico: começou pelos "tapinhas", ouvimos o "amor de rapariga", passamos pela " porrinha" , tivemos a "eguinha" também e finalmente o "arrocha", uma grande seleção de mal gosto "mixada" com uma boa dose de "improfissionalismo".

    Mas é digno de nota que nunca se produziu tanta cultura musical no Brasil, nomes como Maria Rita, Jorge Vercilo, Skank, Los Hermanos são exemplos vivos de que a música brasileira de qualidade está mostrando a sua cara. Mas se assim é, qual o motivo desses músicos não caírem no gosto popular sendo que ao mesmo tempo uma enxurrada de "lixos fonográficos" chegam às emissoras de rádio?

    Infelizmente o bom senso e o profissionalismo muitas vezes sucumbem a interesses imediatos e fonográficos. Até quando rádios, tvs e gravadoras vão vangloriar e exaltar a incompetência de alguns que se julgam "músicos"? A música existe para acrescentar, não importando se é o ritmo ou a letra que acrescenta, não importa a forma que ela é expressada, o que importa é o profissionalismo e o talento de quem a faz, mas o que se vê hoje é o que o princípio da qualidade ficou secundário a interesses econômicos.

    Nunca foi tão fácil ser um músico, basta ter um teclado, (não tirando o mérito dos que fazem bons trabalhos com o uso desse instrumento), um pouco de vontade, pelo menos uma música de cunho imoral no repertório, e duas ou três dançarinas bonitonas que se apresentem seminuas, é claro.

    Só lembrando que o cara não precisa ser bonito, se for dotado de um corpo malhado e mexer bem a bundinha, já está ótimo, o próximo passo é procurar alguma rádio descompromissada com os seus ouvintes, mas compromissada com seus lucros para tocar sua música, o que não é nada difícil, pronto! Está nascendo mais um fenómeno regional.

    O show da incompetência vai continuar e já se nota que os princípios adquiridos de moral e respeito acabam por desaparecer diante da banalidade imposta por essas "músicas". Definitivamente não são músicos, são incompetentes tentando ganhar a vida sem ter noção da desgraça cultural, e por que não, social que estão causando. A MPB, o rock, a música sertaneja já existem, mas estamos presenciando o surgimento de um novo estilo musical no Brasil, esse com nome incrivelmente passageiro,afinal são sucessos de hoje que amanhã ninguém ouve mais.Seu nome? LPB (lembra?) Lixo Popular Brasileiro, que também pode ser interpretado como Lixo Popular Baiano. Vamos escutar pelo menos em nossa casa, o que vale a pena, façamos bom uso dos nossos aparelhos de som, qut Deus tenha piedade dos nossos filhos. E viva o Novo Tom.

    Por Genildo Fernandes do Nascimento.

    Seu nome era Jéssica

    Por Vítor Rios
    Abril de 2005

    Era uma vez uma menina chamada Jéssica. Seu nome era Joana, mas as pessoas a chamavam de Ana Maria, lembrando que sua mãe a chamava carinhosamente de Paula. Ela tinha um problema: tinha um problema. Tinha uma crise séria de identidade: seu nome era Jéssica. Ela gostava muito de aranhas, pois se sentia bem porque sim. Muitos dias se passaram e foi a vez de ver o verdadeiro medo que ela sentia. Não sabia da verdade: seu nome era Jéssica. Mas sua mãe a chamava de Paula. Ela subiu e subiu, mas ela falou: Olha lá! E ela virou-se para frente e disse: OLHA! E sua surpresa apareceu de repente: descobriu que seu nome era Jéssica.

    Seu nome era Jéssica, as pessoas a chamavam de Ana Maria, lembrando que sua mãe a chamava de Paula. Seu nome era Jéssica, ele era bonita. -Vai!! Vou, vou, vai!
    -Já!
    Seu nome era Jéssica. Fui, fui, vai, vai Jéssica!
    Ela ganhou um prémio... a Miss Jéssica.
    Houve um acidente...Ela não ganhou o prémio de Miss Jéssica. Ela ganhou o prémio de Miss Jéssica. Seu nome era Jéssica. Isso levou a uma conclusão: Meu nome é Pedrão. Seu nome era Pedrão. Jéssica!!!!

    Vítor Silva Rios.