Ano: 1 / Nº 01 - Miguel Calmon, Setembro de 2001

III FEIRARTCULTURA, ERUDITO OU POPULAR?

Miguel Calmon pela terceira vez estará sendo palco de manifestações culturais. A realização da III Feirartcultura proporcionará o cruzamento do erudito com o popular, o que sem dúvida resultará em momentos únicos, de espetáculos dignos de grandes berços culturais.

Abrimos espaços aqui para questionarmos algo simples. O que você entende por cultura? Muitos, sem dúvida alguma, dirão que são os ensinamentos que nós herdamos de nossos antepassados e que serão passados de uma geração a outra, resultando na chamada tradição cultural. Porém, isto nos dá a visão de uma cultura ba :amente tradicional, a ideia de que o antigo será sem­pre melhor do que o presente e do que o futuro, já que esses dois últimos são desconhecidos. A ideia de cultura é muito mais abrangente, não se trata de substituir uma coisa por outra, mas de cruzálas e neste momento de encontro, conseguir extrair as mais inovadoras manifestações. Crendo nisto é que pesquisadores como Reinaldo Marques já falam na cultura tradicional e na cultura contemporânea, a primeira referindo-se as culturas locais, populares, e a segunda referindo-se ao mundo globalizado, marcado pela atuação oniprcscnte dos meios de comunicação de massa, ge­rando assim o "hibridismo cultural", que deve ser entendido como as várias misturas de cultura.

Mas cultura popular estaria voltada para quem? E a cultura contemporânea? Neste momento é necessário lembrarmos que a nossa sociedade é hierárquica, que existem dominadores e dominados, elite e povo, nobres e plebeus. Como consequência, uma visão frequentemente diferente a respeito das mesmas coisas.

As elites costumam estar mais abertas para as novidades de fora de seu conceito habitual, o globalizante. Ao passo que o povo vai absorvendo o novo aos poucos, somente na medida em que vai precisando disso, conservando a ideia da tradição. Dando a impressão muitas ve­zes que o povo e elite constitu em dois organismos estanques. Na realidade, isso não se dá. Através da comunicação direta ou indireta, um lado fica sabendo o que o outro faz. É neste ponto que o popular começa a sofrer influência do erudito e vice-versa, algumas vezes com muita resistência, outras nem tanto, o fato é que a influência pode ser percebida. É ai que entra o grande momento que a Feirartcultura proporciona, ela num pequeno espaço físico promove a união do tradicional como: a chula, o bumba, cantigas de roda, com o contemporâneo como: desfile fashion, stands de informática(internet e vídeokê).

Daí deve se pensar numa cultura heterogénea, multicultural, híbrida. Não privilegiando a cultura popular nem a cultura erudita, como se uma fosse mais que a outra, mas sim um hibridismo, o qual aparece como estratégia crítica, ao invés de simples apropriação ou adoção de uma estética, de uma espécie de manifestação cultural, ele assume um movimento que busca modificar conceitos da nação como organismo fechado e coeso.

A Feirartcultura, promovida pela Prefeitura Municipal de Miguel Calmon, trabalha com esta noção de heterogeneidade multitemporal elementos da tradição popular, deslocados, mais não anulados, persistem e convivem com elemento do mundo "moderno" e globalizado.

Editorial

Por Leandro Michel
09/2001

Vírus é uma reunião de inteligências e talentos que andam espalhados em diversos setores profissionais em busca da sobrevivência. E agora esses talentos e inteligências embora com diferentes modos de pensar e interpretar a realidade, identificam-se num ponto crucial: a ética, preocupação primeira deste periódico mensal que estreia com a intenção de discutir e proporcionar ao leitor calmonense uma leitura de Miguel Calmon, do Brasil e do mundo de hoje.

Outros muitos talentos e inteligências, calmonenses, irão desfilar nas páginas futuras de Vírus. Homens e mulheres, jovens e maduros, ávidos por uma publicação que lide com ideias, que seja crítica, que leve à reflexão. E que traga tudo isso sem ser aborrecida, mas com humor; sem academicismo, mas com linguagem cotidiana; sem partidarismo, sem vanguardismo, sem voluntarismo, na verdade, sem nenhum "ismo". A todos nós, vida longa. E vê se providenci­am um antivírus.

O BRASIL E A CONTROVERSIA SOCIAL

Com certeza este é o país da imoralidade, da miséria e da insegurança, mas...

Enquanto uma elite minoritária se refresca nas águas do Caribe, o povo pobre assume a responsabilidade de pagar a conta.

A nação brasileira traz sobre o "lombo" um Estado que há quinhentos anos insiste e se distanciar cada vez mais daqueles que na verdade deveriam ser seus protegidos.

A estratégia da elite consiste em minar todas as expectativas daqueles que almejam uma sociedade mais justa e igualitária, passando a ideia, através da cultura burguesa e de uma imprensa capciosa, de que não há solução para os problemas e que todos são coautores das decisões irresponsá­veis que conduziram o país ao jugo dos grandes capitalistas nacionais e estrangeiros, todos possuidores de uma ganância vil. Dizem que estamos no mesmo barco. Será que estamos? Eu acho que não!

Na realidade, estamos vivendo num Eden às avessas. A sociedade platônica não se encaixaria nesse país. A teoria de Descartes, sobre a soberania da razão e a supremacia da verdade em detrimento da mentira e da falsidade seria copletamente aniquilada por aqueles que se dizem portadores da capacidade de transformação do estado e da sociedade mas, na primeira oportunidade, apa­gam seus passados e vendem suas consciências em troca de uma pequena escada que os levem a outra classe social, um pouco mais abastada que aquela em que se encontram.

Ser corrupto é ser in­teligente? Esperto? Ser honesto é ser bobo? Despreparado para a vida? Usurpar o patrimônio alheio passa a ser uma virtude? Diante das dificuldades da vida deixar se corrom­per sem que "ninguém" seja prejudicado é correto? Será que o errado é o que os outros fazem e não o que nós fazemos?

As distâncias sociais aumentam e a virtude perde terreno para a ignorância, a corrupção e a maldade. Enquanto as pessoas honestas e trabalha­doras desse país ficam cada vez mais pobres e, de um modo geral a elite corrupta fica cada vez mais rica, a ideia que cultivamos é a de que toda virtude é vã e que corromper-nos é o caminho ideal.

Como uma sociedade espera resolver seus problemas se aqueles que a dirigem não atentam para essas coisas? O homem é movido por ideias, e estas, no nosso tempo, precisam ser mudadas. Não podemos fazer vistas grossas para as pequenas corruptelas. Como esperar que os outros melhorem se nós não melhorarmos?

Se o brasileiro mudar, a nação muda. Mude! O seu gesto simples trará uma gota de esperança à nossa cambaleada sociedade. O exemplo de sua dignidade será uma arma poderosa contra a tirania que impera nos altos escalões da nação brasileira.

ANATOMIA DA DECADÊNCIA

Por Wésley Oliveira
09/2001

Certo dia estava conversando com alguns alunos do Colégio Municipal quando uma atitude me chocou: um deles disse que já estava em recuperação, na metade da terceira unidade, em algumas matérias, e o pior é que via isso como uma conquista tão louvável como a do aluno que consegue a aprovação para o ano letivo seguinte em apenas duas unidades. Esse fato me levou a refletir se não seria essa inversão de valores atrelada a outros fatores, como o aumento da concorrência nos cursos de Jacobina e a opção, dos estudantes mais preparados, por cursos extremamente concorridos, que levou o Colégio Municipal a aprovar pouquíssimos alunos no processo seletivo 2001.

Vê-se, com cada vez mais frequência, alunos, como o es­tereotipado acima, desfilando pelos corredores das escolas públicas locais, os quais são frutos de uma política difundida pelo Ministério da Educação, que faz questão de torná-los medíocres e para alcançar seu objetivo usa métodos que obrigam os professores a aprovar alunos que não têm o menor preparo para isso, e o reflexo são discentes que sabem cada vez menos e consequentemente não obtêm aprovação no vestibular. Além disso, até dois anos atrás, a concorrência para os cursos disponíveis em Jacobina era muito pequena, bastava uma redação bem feita e o acerto de vinte por cento da prova para garantir o ingresso do aluno na universidade.

Mas as coisas mudaram, a exigência cada vez maior, no mercado de trabalho, por um diploma de nível superior, não importando qual o curso, fez com que a demanda por vagas noensino superior aumentasse. exigindo um aproveitamento muito maior vestibulando para conseguir classificação. E parece que só os estudantes calmonenses não acordaram para esse fato. Por outro lado, a implantação do ensino médio em Miguel Calmon, com o objetivo de preparar o aluno para o vestibular, fez nascer no discente calmonense a crença de que "passaria" em qualquer curso, que de fato pode acontecer, mas falta conscientizar esses alunos de que para obterem resultados positivos no vestibular, só a escola não é suficiente, é necessário que ambos façam sua parte: a escola com boa docência e com mais respeito à carga horária, pois os alunos deixam de assistir muitas aulas durante o ano letivo sem uma causa justa para isso; e, o discente, com empenho e dedicação.

Ante o exposto, fica patente que, se não houver uma mudança de mentalidade por parte do estudante calmonense e uma atitude mais responsável por parte das escolas, será impossível voltarmos a ter bons índices de aprovação, não só no vestibular como, também, em outros concursos.

Expediente

09/2001

WESLEY OLIVEIRA - ADIEL OLIVEIRA - LEANDRO MICHEL - LEAL JÚNIOR - MARCELINO PINTO - WALDSON JÚNIOR - SANDRA COUTINHO - JOSÉ CARLOS - JESSER OLIVEIRA - SHEILA NASCIMENTO - IRANILTON RIOS
IMPRESSÃO JACOGRÁFÍCA

DO ZOO A FAVELA

Por Jesser Oliveira
09/2001

Assistindo à tv vi algo que me causou não sei se espanto, não sei se revolta, mas mexeu comigo: era uma reportagem feita em um jardim zoológico, fazia alusão à alimen­tação dos animais.

Você sabia que um leão-marinho come quinze quilos de peixe por dia e que sua alimentação tem que ser variada? Num dia ele come sardinhas, noutro, salmões. O leão come sessenta quilos de carne por dia; um macaco come uma grande variedade de legumes e frutas, bem como os outros animais. Conclusão: gasta-se uma fortuna para manter um jardim zoológico. Pensei: será que esse dinheiro não seria mais bem aplicado em um programa para erradicação da pobreza no mundo? Ou pelo menos numa parte deste?

Certa vez houve um gasto astronômico para transportar a baleia do filme Free Willy de um reservatório para o mar. Uma personalidade famosa disse que seria melhor ter transformado a baleia em hambúrguer para matar a fome das crianças do seu país e empregado o dinheiro gasto no transporte em assistência social. Concordo plenamente.

Se o dinheiro que é gasto em um jardim zoológico, fosse empregado para um fim social resolveríamos, ou amenizaríamos dois problemas: reduziríamos a pobreza e não mais tiraríamos os animais do seu habitat colocando-os em jaulas para diversão de alguns. As jaulas ficariam disponíveis para prender políticos corruptos, os quais serviriam de atração. Seria ótimo, mas não ficariam lá por muito, pois, no Brasil, os corruptos sempre são tratados com muito carinho,além disso, lá não é cela especial. Infelizmente, o ho­mem é destruidor nato, acaba com as outras espécies e também com a sua. Nos zoológicos, animais vivem como homens, nas favelas, homens vivem como animais. Daí temos animais comendo carne e pessoas comendo lixo. Há quem se divirta com os dois.

25 DE JULHO, A SENTENÇA

Por Leandro Michel
09/2001

Todos, indiscutivelmente, amontoados numa ampla sala, à espera do pronunciamento indignado do grande líder: professores, coordenadores, direção, secretários, porteiros, zeladores, outros tantos que desconheço, concursados e contratados, quietos, temerosos como filhos que teriam de­sobedecido ao pai e temiam pelo possível castigo. Concre­izado no dia 25 de julho. Uma data relevante. As vezes sou obrigado a concordar com a lógica nefanda do colunista social, Nataniel Jebão, quando diz que existe uma ordem hierár­quica no mundo e que é inútil lutar contra ela. Mas somente às vezes, pois acreditar na inviabilidade do homem, ou supor que ele é uma experiência que não deu certo ou, até mesmo acreditar que Deus tem um senso de humor muito estranho, é se colocar como vítima do vírus do poder, tão nefasto, que Nicolau Maquiavel há séculos declarou sobre os homens: "quer conhecê-los? Dê-lhes poder". Vivemos momentos confusos, complicados, conflitantes.

O mundo ferve diante das atrocidades cometidas pelos ditadores trajados de democratas; as vísceras do cidadão comum escorrem por entre os dedos dos neoliberais e tudo fica por isso mesmo. Está na hora de dizer basta! Chega! Não podemos continuar servindo de "ratos-cobaias" desse sistema excludente, opressor. Precisamos ter uma mentalidade combativa, fundamentada nos valores humanos, éticos, morais; não podemos viver na ordem selvagem do capitalismo confundindo o moral com o ilegal e vice-versa.

Para educadores do novo milênio, alienação, sujeição e submissão, devem servir apenas como lembrança e objeto de estudo das sociedades primitivas.

P.S. Por falar em política, para que serve uma câmara de vereadores? Respostas - enviar para a redação.

O CAOS

Por Júnior Leal
09/2001

Os últimos resultados da nossa Seleção Brasileira de Futebol têm demonstrado a realidade deste esporte no país. São derrotas para equipes extremamente inferiores a nossa e apresentações sem nenhuma relação com o nosso passado de sucesso; Existe um conjunto de coisas que ocasionam esta situação, em primeiro lugar o descrédito dos dirigentes do futebol brasileiro diante dos torcedores e até mesmo dos próprios jogadores; um segundo fator é a falta de von­tade dos grandes atletas em defender a camisa da Seleção Brasileira e problemas de relacionamento entre estas estrelas, cada uma querendo brilhar mais na mídia - a vaidade individual para estes jogadores está acima de qualquer "amor à camisa", existe os que têm garra e vontade, porém não tem talento para impor respeito com a camisa canarinho; e por fim os interesses financeiros de empresários e clubes acima dos interesses da Seleção, convocações feitas sem critérios e voltadas exclusivamente para valorização de atletas custodiados por grandes empresários do futebol. A vitória para o Paraguai amenizou a crise. A Ambev e a Nike estão arrepiadas com a possibilidade da Seleção ficar de fora da Copa do Mundo, seria para eles prejuízos de milhões de dólares. Patrocinar não é pecado, pelo contrário, necessitamos muito de patrocínio nos esportes olímpicos brasileiros que só são lembrados em época de Olimpíada, mas patrocinar não é comprar, e a CBF parece que pertence a Nike e a Ambev. Tomara que o castigo não seja pago por nós com a desclassificação do Brasil. O ATOR À BEIRA DO CAMPO Luis Filipe por onde passou sempre mostrou competência como treinador, porém, ele é tido entre os colegas muito mais como ator do que como orientador à beira do campo, tem feito caras, bocas e cenas para as câmeras de televisão, até quando estava suspenso no jogo contra Honduras ele deixou uma portinha aberta para mostrar suas reações a cada lance da equipe.No jogo contra o Paraguai lá estava novamente nosso galã das novelas da seleção. Pode parar Felipão, nós precisamos é de treinador não de ator.

PROJETO RONDON A Associação Comercial participa da Comissão de Segurança Municipal, onde foi solicitado de cada entidade projetos que pos­sam amenizar a violência em nossa cidade, e para a alegria dos amantes dos esportes uma de suas pro­postas foi a implantação do PROJETO DE INICIAÇÃO ESPORTIVA voltada para a formação de jovens atletas em diversas modalidades esportivas, como voleibol, futebol, basquetebol, atletismo, handebol entre outras. Já existiu no passado um trabalho como este que tinha o nome de PROJETO RONDON. O projeto seria capitaneado por professores de educação física, contratados pela Comissão de Segurança para ensinar as noções básicas de cada atividade esportiva, abrangeria os jovens de 8 a 17 anos. Não é um programa caro, pois. Inicialmente seria apenas necessário bolas, redes, apitos e outros poucos materiais esportivos, e camisetas com o patrocínio do comércio local. Os recursos para custear o projeto seriam arrecadados pela Comissão entre os comerciantes, demais entidades participantes da Comissão e pela Prefeitura Municipal. Pode parecer um projeto pequeno, mais quem presenciou os frutos do Projeto Rondon tem a certeza do sucesso. SECRETARIA MUNICIPAL DE ESPORTES: Ocorreu no dia 26.08.2001 em Salvador a corrida Duque de Caxias - ISAEX com o percurso de 10km., onde participaram vários atletas calmonenses, destaque para Laelson S. Santana (NION) 21 anos, 3° lugar classificação geral, e obtiveram o primeiro lugar em suas categorias os atletas, Agenário S. Santana, 25 anos , Raulina S. Santana 24 anos e Lucimar S. Santana 32 anos.

UFANISMO OU UTOPIA?

Por Adiel Oliveira
09/2001

Não bastassem 501 anos de exploração externa ainda temos a opressão interna, efetivada pelos "senhores do poder", que esses utilizam de meios sórdidos para se manter no governo ditando regras sempre favoráveis às classes dominantes.

Há muito tempoo monopólio formado pelos grandes empresários vem impedindo que as camadas sociais menos favorecidas consigam melhorar sua condição. Primeiro impedindo o desenvolvimento cultural; segundo impossibilitando seu crescimento econômico.

O Estado não demonstra interesse em modificar esta situação. Está mais interessado em conceder benefícios às grandes multinacionais patrocinando a instalação de empresas e lhes concedendo empréstimos e isenções de impostos por vários anos, além de outras vantagens como cessão de áreas destinadas à instalação dessas empresas, sem contar com as privatizações.

Uma atitude mais coerente, por parte do governo, seria facilitar o financiamento para os pequenos empresários, prestadores de serviços e agricultores, pois são estes os maiores geradores de empregos do país. No entanto, o que acontece é exatamente o contrário: os grandes empresários conseguem financiar quantias vultosas, por prazos longínquos, e muitas vezes dão um calote no governo, enquanto os pequenos empreendedores ficam a ver navios. Com essa atitude, o Estado dificulta o desenvolvimento econômico dessas pessoas e prejudica o crescimento homogéneo do país; como consequência as regiões crescem de forma desequilibrada formando grandes centros que são os principais causadores de distúrbios sociais. Outro problema é a dificuldade que as pessoas têm para obter uma formação profissional. O que se vê hoje em dia é o sucateamento das universidades públicas que dá azo ao crescimento desordenado de faculdades particulares, facilitando o ingresso daqueles que podem pagar e excluindo os outros interessados, deixando nítido o interesse das classes dominantes. O problema poderia ser resolvido com o aumento de investimentos na área educacional, com a criação de centros de formação profissional e com a ampliação de vagas nas universidades públicas, acessíveis a toda população. Assim, certamente, teríamos profissionais mais qualificados e mais dispos­tos a trabalhar em benefício do meio SCK d, como resposta ao investimento feito pelo Estado. Muitas são as soluções que poderiam ser tomadas por nossos governantes. A maioria lhes é apresentada, mas, no entanto, inventam desculpas, con­tornam com dificuldades filosó­ficas ou criam empecilhos de na­tureza económica. O Brasil é um país rico; o problema está na divisão dessa riqueza, pois sempre tem um espertalhão querendo se aproveitar e levar vida de barão às custas da nação.

Basta!!!

O QUE O LEITOR ACHA DE PARTICIPAR DE UMA FESTA DIFERENTE, UMA FESTA ESQUISITA, TAMBÉM COM GENTE ESQUISITA?

Por Vírus
09/2001

Será assim a primeira e inovadora festa de HALLO-WEEN, que acontecerá no dia Io de novembro de 2001, no Umbuzeiro Clube de Campo. Todos estão convidados para esquecerem a mesmice do dia-a-dia e se renderem a uma diversão alegre. Imagine como será... Para participar do evento, o leitor deverá adquirir uma camisa que funcionará como ingresso. Junto com a camisa, receberá um número e estará sujeito a sorteio de brindes. As camisas estarão sendo vendidas com quinze dias de antecedên­cia no Edf. do Sindicato Rural, 101, sala 106. Poderá fantasiar-se como um dos monstros conhecidos do cinema e seriados de Tevê, tais como: vampiros, bruxas (as garotas ficam lindas de bruxas), monstros da "Famílias Adams", entre outros. Ou, ainda, fantasiar-se de qualquer outra coisa, basta ter criatividade. O participante terá de se fantasiar de uma forma que não cubra toda a camisa, deixando à mostra o logotipo do evento (que estará na parte da frente da camisa). A banda irá animar no estilo ROCK POP, com músicas do com músicas do Legião Urbana, Engenheiros do Hawai, Titãs, Skank,

Capital Inicial e muito mais. A decoração será especial, não podemos dizer o quanto, senão perderá a surpresa. O garoto e a garota mais criativos em suas fantasias e maquiagens ganharão prémios. Também serão contemplados aqueles que, obedecendo ao clima de um tradicional Show de Calouros, subirem no palco e cantarem alguma música, só não vale quem já é profissional. Enfim, não esquecer que no dia Io de novembro a lua estará cheia...

Esperamos ansiosamente você.

TURISMO: MITO OU REALIDADE?

Por Iranilton Rios
09/2001

Os poetas sempre louvaram a natureza em seus versos, sempre se inspiraram nela para produzir rimas - mas na vida real a natureza foi, ao longo dos tempos, impiedosamente castigada pelos homens. Estuprada.

Humilhada. Desprezada. Foram tempos, décadas, séculos em que poluição e progresso pareci­am irmãos siameses. Florestas destruídas, rios contaminados, o ar das cidades escurecidos por nuvens de fumaça - tudo isso foi sempre considerado o preço a pagar pelo desenvolvimento. Não mais. Primeiro foi a devas­tação, depois a indignação - e agora é a ação. É como se a hu­manidade tivesse despertado para o óbvio: não adianta acu­mular riquezas, exigir um super-PH3 ou construir mégalopoles se não há ar puro para respirar nem água limpa para beber. O divór­cio do século, no limite, não é o que afasta a classe operária do comunismo - é o que separa a poluição do progresso. O capital torna-se cada dia mais verde. Essa conversão não ocorreu por 'acaso. Hoje, vemos frases saí­das dos lábios de empresários que poderiam ser perfeitamente assinadas por dirigentes do Greenpeace.

Dentro desse contexto o turismo tem dado uma grande contribuição, principalmente na nova abordagem proposta - turismo sustentável, turismo que adota estratégias, atividades e práticas de negócios ambientalmente, responsáveis, que atendam às necessidades do empreendimento comercial, in­dustrial e financeiro aos investi­dores e ao mercado de viagem, protegendo, sustentando e valo­rizando os recursos naturais e humanos necessários para as li gerações futuras.

A tualmente, o turismo se tornou de tal importância econômica e social que já não podemos mais parar o trem do progresso e do desenvolvimento gerado por esta miscigenada atividade.

Para se ter uma dimensão macroeconómica, o turismo gera, anualmente, em média 5% da receita de exportações mundiais, mobilizando milhões de pes­soas e recursos. Sua posição na geração da receita de exportações mundiais só é superada pelo setor petrolífero e pela indústria automobilística.

Normalmente, a receita gerada pelo turismo promove muitos benefícios à sociedade que recepciona, vantagens que dizem respeito à geração de empregos e de divisas e ao aumento da renda e do consumo.

O aumento dessa atividade no Brasil é considerável, recebemos em 1999 cerca de 5 milhões de turistas, mas para os próximos anos, a OMT (Organização Mundial do Turismo) estima que o número de pessoas que viajam em torno do planeta dobrará com uma população de 1,56 bilhões de pessoas viajando mundo afora.

No Brasil, um dos estados que mais vem desenvolvendo a atividade turística é a Bahia. O estado já é o segundo no ranking do turismo nacional, se continuar no mesmo ritmo, o Rio de Janeiro que se cuide. O diferencial da Bahia é que enquanto outros estados possuem um máximo de cinco pontos de atração, a Bahia dispõe de 14 áreas turísticas. Porém, para atingir tal objetivo será necessário investimento. Quem olha os encartes turísticos da Bahia pode ver o Pelourinho,as praias da capital, um ou outro traz a Chapada Diamantina e a Costa dos Coqueiros, mas há quem esqueça o estado em toda a sua complexidade de cenários naturais e paisagens paradisíacas, muitas vezes esquecidas pelos vi­sitantes. E preciso trabalhar para aumentar o número de roteiros e trabalhar para aumentar o número de roteiros e não estagnar em apenas poucas regiões do estado. Com a criação de novos roteiros, a Bahia investe no potencial turístico e redescobre regiões onde ainda há muito o que se ver, por exemplo, o Roteiro da Chapada Norte, formado por 9 municípios, onde se destaca Miguel Calmon.

M. Calmon é privilegiado por uma gama de atrativos culturais e, principalmente, naturais, concentrados no Parque Es­tadual das Sete Passagens, um presente da natureza ao município. São paisagens cénicas, grande variedade da fauna e flora e dezenas de deslumbrantes cachoeiras. E continua sendo descobertos e catalogados novos atrativos a cada dia.

É importante ressaltar que o turismo não é a solução para o desenvolvimento socioeconómico de Miguel Calmon, mas sim apenas uma das alternativas.

Atualmente, o município se destaca no roteiro da Chapada Norte em termos de planejamento e conscientização para a explora­ção da atividade turística. O turis­mo não é um pote de ouro no fim do arco-íris, nem um quebra galho, ou mesmo um modismo, mas uma atividade que assume papel de destaque na indústria do lazer do nosso tempo e que somente a cooperação e a integração produtiva entre a indústria do turismo, os defensores do meio ambiente e a comunidade podem obter benefícios e alcançar a qualidade de vida desejável.

MELHOR QUE PROTEÍNA, SÓ A MORTE

Por Marcelino Pinto
09/2001

Rebeldia é política, quem não sabe disso acredita em Papai Noel. É negar frontalmente que somente através das transgressões mudo de rou­pa, hábitos e opiniões. Quan­do você menos espera seu guri chega em casa de brinco e aí já era. O Tom Zé sempre diz que a rebeldia é a proteína que move a sociedade.
Em contrapartida, ser rebelde não é tão fácil. Exige rigor, disciplina, não pode ser assim tão fácil, senão, todo mundo seria artista e rebelde (e não haveria mais ninguém para falar mal). Logo, se apontam defeitos e incoerências, já não existem mais desafios, seja se descobriu o óbvio do ovo, tudo está perfeito, então, o único caminho é pendurar as chuteiras.

Por que temer mexer com vacas sagradas de todos os segmentos? A gente mora na índia por acaso? Esse é o tipo de exercício que indica a reflexão do mundo e o mundo da reflexão...

Saci, Lobisomem, Papai Noel, brasileirices e bizarria, opiniões não lisonjeiras e escassez de ideias consistentes, apenas indicam todas as formas de existência"? inautênticas e celebridades instantâneas.


Quero o meu direito de pensar a cultura como reafirmadora da vida! Quero valores alternativos, criar uma estética diferente e mais humana, uma contracultura! Chega de placas, rótulos, futilidadesde auditório e gabinetes, jabá e todas as figuras e arquétipos de alienação subordinadas à lei, à moral e mitos. Chega!


Visceral, veia pulsando e oxigénio nas fissuras é o que importa. Do contrário, acabo inculto, manobrável, consumível, descartável, distante e pasto. E isso não quero para mim nem pra ninguém. O problema é que exis­te uma cultura muito machista que vê a menina somente como objeto sexual; mas o que está acontecendo é que a sexualidade é demais e as pessoas não os jovens só falam de bola e de meninos ou de meninas. Se você aprofunda um pouco so­bre outros assuntos eles não sabem quase nada (eu achei muito baixo o nível das escolas, todas, depois eu pensei - pra que aprender muita coisa se depois não encontram nada pra fazer).


Tchau e benção!

Entrevista com Pe. Paolo Cugini

Por Vírus
09/2001

Padre da paróquia de Miguel Calmon, filósofo e pedagogo italiano, Paolo Cugini, 39 anos, é uma voz coerente dentro da Igreja. É defensor da Reforma Agrária e da Justiça Social, por achar uma incoerência pregar o Cristianismo e ao mesmo tempo partilhar a falta de divisão dos meios de produção e dos bens de consumo; é, também, contra as privatizações que, segundo ele, só vão beneficiar empresas estrangeiras e a elite nacional. Recebeu Vírus na Casa Paroquial numa entrevista onde falou sobre sua missão, sobre a Igreja e, sobretudo, da comunidade calmonense. A seguir alguns dos trechos mais instigantes:

VÍRUS - Qual o seu primeiro trabalho como padre?

Paolo Cugini - Como padre, meu primeiro trabalho foi, sobre­tudo, com drogados. Lá na Itália a droga é demais, não é como aqui; aqui é nada, é somente maconha, porque o povo não tem dinheiro; lá a heroína esta matando os jovens. Continuei a trabalhar procurando jovens e grupos de jovens afastados da igreja e drogados assim, trabalhei bastante. Até quando, um dia, um bispo lá da Itália me ligou numa noite pedindo para eu vir para o Brasil. Ta bom, ta certo. Arrumei a mala e pronto (risos).

V - Chegando ao Brasil qual foi a impressão que teve?

P.C. - Uma coisa que me chamou a atenção quando cheguei foi um forte individualismo, talvez por causa da pobreza por causa do sofrimento, por ter recebido muitas porradas na cara, não sei, mas achei muito forte esse individualismo. Na aparência é um povo acolhedor, e de verdade também é, mas quando se procura juntar as pessoas para fazer um caminho e meditar a palavra de Deus, tentando entender um pouco como é que são as coisas, achamos uma forte resistência por causa desse individualismo. Outra característica que encontrei foi a humanidade das pessoas, ou seja, basta um pouco para que as pessoas se fechem, isso é típico das pessoas daqui. Os italianos gritam forte, ficam com raiva, xingam, mas depois são amigos como antes. De vez e quando isso acontece comigo (ahhhh!!), começo a gritar porque é o jeito de fazer do italiano. Aqui, se você faz uma coisa o povo fica magoado, se fecha e isso provoca, dentro de um trabalho de grupo, problemas.

V - Que dificuldades o Sr. encontra para desenvolver seu trabalho aqui na cidade?

P.C. - Uma dificuldade desse trabalho que me chamou a atenção foi a escassez de informação; jovens que não sabem quase nada. Descobri uma falta de conhecimento muito grande e isso provocou em mim uma decisão de gastar muitas energias para acompanhar essas pessoas. Outro grande problema que estou encontrando são as famílias quebradas, desfeitas, desestruturadas, que provocam no adolescente uma montanha de problemas, e, muitas vezes, eles não encontram uma pessoa para se abrir, e se encontram, são pessoas mais desestruturadas do que eles.

V - Em sua visão, qual é o maior problema do jovem calmonense?

P.C. - O maior, sem dúvida nenhuma, para mim, é a falta de possibilidades, a falta de perspectivas.

V - Em que sentido?

P.C. - Todos. Aqui o jovem faz o quê, num sábado, por exemplo? Não tem nada. Um teatro, um cinema, nada. E tem a falta de dinheiro em casa, muitas pessoas não têm condição financeira nenhuma, passam fome e deixam de frequentar a igreja até mesmo por não terem roupas. São fatos muito chocantes e vêlos é como levar uma facada nas costas.

V - Qual o caminho que o Sr. escolheu para resolver estes problemas?

P.C. - Colocando-me pessoalmente em um diálogo particular. O trabalho que estou fazendo neste ano foi a partir destes problemas que eu encontrei; decidi entrarem escolas da rede municipal e no Polivalente, não para dar palestras, porque já tem professores muito bons, mas para me colocar à disposição dos jovens que desejassem falar comigo, jovens que às vezes ficam com receio de falar com um padre, não sei se por causa da barba (risos), tentando manter um relacionamento para ajudar o jovem a se abrir. Umacoisa muita interessante é que muitos evangélicos estão me procurando - eu não faço uma proposta da Igreja Católica, o que me interessa é ajudar a pessoa a resolver aqueles problemas e a sua humanidade que muitas vezes bloqueia o desenvolvimento da "cabeça".

V - Como é a vida lá no Bairro das Populares?

P.C. - Vivendo lá nas populares ao lado das pessoas vejo cada coisa impressionante. De um lado vejo a solidariedade das pessoas quando passam muita necessidade, elas se ajudam; se uma pessoa tem um pedacinho de pão e a outra não tem nada aquela dá um pedacinho, por outro lado, outro grande problema é a prostituição nos bairros, ta demais. Além disso, tem outro problema que está quebrando as famílias e também está provocando uma ruptura no relacionamento entre pessoas que é o machismo, para mim é demais. Os homens não falam com as esposas porque acham que agindo assim elas vão querer mandar neles. Fazendo isso o que é que acontece? Tudo fica nas costas da mulher; A mulher serve somente para relacionamento sexuais; e isso dificulta muito porque uma criança ou um adolescente não tem um relacionamento com os pais, seja menino, seja menina, aí temos um problemão!

V - O Sr. tem pretensão de ficar aqui quanto tempo?

P.C. - Meu contrato é até 2009.

V - O quê o Sr. almeja alcançar nesse período?

P.C. - Meu desejo é que quando chegar 2009 pelo menos eu tenha ajudado algumas pessoas a se decidirem, e a se firmarem nessas decisões. E ajudar as pessoas a resolverem todos aqueles problemas da violência, da sexualidade vivida sem orientação dos pais, principalmente na zona rural - a sexualidade faz parte de um projeto de vida, se tirá-la desse projeto o homem se torna como um animal.

O problema é que existe uma cultura muito machista que vê a menina somente como objeto sexual; mas o que está acontecendo é que a sexualidade é demais e as pessoas não os jovens só falam de bola e de meninos ou de meninas. Se você aprofunda um pouco sobre outros assuntos eles não sabem quase nada (eu achei muito baixo o nível das escolas, todas, depois eu pensei - pra que aprender muita coisa se depois não encontram nada pra fazer).

V - Recentemente a mídia tem divulgado muita coisa sobre o sexo na igreja - abortos, homossexualismo etc. Não está na hora da igreja rever a questão do celibato?

P.C. - Aqui no Brasil, talvez, porque ninguém quer ser padre. Na Igreja Católica é um dom que deve ser cultivado. Talvez pudesse acontecer como na Igreja Ortodoxa, que deixa livre. Sem levar uma vida celibatária "eu" não conseguiria de jeito nenhum desenvolver este trabalho. Claro que às vezes sinto a necessidade de falar um pouco, de sentir um carinho, mas eu penso, com certeza se fosse casado e se tivesse filhos não conseguiria.

V - Fenômenos como o padre Marcelo Rossi seriam uma tentativa da Igreja Católica recuperar os fiéis que perdeu ou de não perder outros?

P.C. - Na realidade a Igreja Católica não gosta muito porque é o jeito exatamente oposto àquilo que Jesus fez. Jesus formou, so­bretudo, consciência; logo que começou a pregar, todo mundo ia atrás Dele, depois, quando Ele começou a jogar duro todo mundo se mandou. Esse negócio de show eu não gosto muito, por­que não forma consciência. O grande problema é que, num lu­gar como M. Calmon, todo mundo é constrangido a pensar a mesma coisa. O papel de uma igreja, de um pastor, um padre, é ajudar a abrir a mente. A Igreja Católica se posicionou contra Marcelo Rossi e a Renovação Carismática. No início foi muito dura, mas vendo que o movimento está se espalhando, agora está tentando acompanhar, mas não é uma escolha da Igreja Católica. É um movimento que entrou na igreja e está tomando conta, está se espalhando, principalmente na América Latina.

V - O Sr. acha que Jesus ajudava as pessoas a formarem uma consciência política?

P.C. - Mas claro (empolgado), no sentido verdadeiro da palavra. Não política partidária, mas política no sentido verdadeiro, voltada para o homem. Se você abre o evangelho sempre é política. De fato Cristo mexeu bastante, criticou "ai de vós fariseus, raça de víboras", por isso mataram Ele. Por que mataram Ele? Porque mexeu com problemas concretos e com as explorações.

V - Percebemos que os líderes religiosos se omitem aos problemas sociais, são homens de quatro paredes, porque isso?

P.C. - No Brasil eu encontrei muitos padres e irmãs comprometidos com a luta pela terra, pela água. Como posso celebrar uma missa na Palmeirinha, dizendo aleluia, quando o povo ali está sendo explorado e não tem nada para comer. Estou muito preocupa­do com a consciência dos ricos, mas vai chegar um dia que eu vou ter de escolher; já aconte­ceu na Itália comigo e vai acontecer, também, aqui. O que é que eu vou escolher, eu já escolhi, fiz uma escolha muito clara, eu quis fazer logo isso, sem falar, para todo mundo saber com quem eu fico.

V - Ficamos sabendo que o Sr. foi contra a privatização da Embasa, por quê?

P.C. - É muito simples, as prioridades da nossa Diocese são terra e água. Descobri no ano passado que o FMI emprestou dinheiro a Fernando Henrique Cardoso e em troca exigiu a privatização da Embasa, só emprestava dinheiro se privatizasse a Embasa, isto porque os Estados Unidos estavam querendo tomar conta da água. Eu soube em um encontro que para privatizar a Embasa os prefeitos deveriam assinar, ou sim ou não. A equipe paroquial de Itaberaba estava lutando muito forte contra a assinatura, fazendo manifestações. Quando o problema começou a se desenvolver eu tinha acabado de chegar e logo fiquei sabendo que o prefeito daqui. já tinha assinado, favoravelmente à privatização.

V - O Sr. acha que a privatização não funciona?

P.C. - A privatização é coisa boa somente onde o capitalismo funciona. Na Europa, há muitos anos só se bebe água mineral, lá as pessoas têm dinheiro para comprar. O que vai acontecer após a privatização? Só vai beber água quem tem dinheiro; os outros vão beber água suja, como estava acontecendo na Queimada do Canto, que ficou cinco meses bebendo água suja porque uma bomba d'água quebrou. O povo estava se queixando depois nós fomos lá falar como vice-prefeito, liguei duas vezes e, depois, ele disse que já tinha mandado consertar. Como é que se pode deixar cinco meses um povo bebendo água suja?

V - O sistema capitalista não funciona dessa forma, individualizando as pessoas e impedindo o desenvolvimento cultural para manter a condição de "opressor e oprimido"?

P.C. - É assim, quem tem mais dinheiro tem mais possibi­lidades de informação. Aqui encontro situações que ocorrem no primt o mundo, pessoas que têm tudo, dinheiro, carro, internet; e situações não de terceiro mundo, mas de quinto mundo famílias que não têm absolutamente nada. O que está me impressionando é que as três comunidades mais pobres de Miguel Çalmon (Palmeirinha, Buracão e Ladeira Cavada) são três lugares no meio de uma natureza tão rica que é impressionante. O Buracão, por exemplo, parece a Africa, de tão pobre. No entanto, é um lugar tão verde, tem água, parece um paraíso. Eu pensei: como é que este povo pode passar fome, como pode ser pobre, é demais. Depois perguntei a alguns moradores: de quem é esta terra? Responderam: é de Fulano, Cicrano. Aí eu disse: mas pede a terra. Responderam: Não dão não. Deixam cercada, não cultivada, mas não dão. Na Palmeirinha é a mesma coisa, os homens estão sem trabalhar porque não têm terra e os fazendeiros não abrem mão de jeito nenhum. Falta uma reforma agrária.