Alexandro

Maio de 2011

Vírus: Quem é Alex, o enfermeiro, o ex-secretário?


Alexandro: Bem, eu sou Alexandro Gesner, enfermeiro, nascido e formado em Enfermagem, em Feira de Santana na UEFS, pós-graduado em Saúde Pública. Fui aprovado em 2006 num concurso público em Miguel Calmon, mas já trabalhava aqui desde 2004 através de um contrato com o Hospital e a Prefeitura Municipal.

 

Vírus: Por que Miguel Calmon?


Alexandro: Eu conhecia a então Secretária de Saúde Ticiane Mota, que também foi graduada na UEFS e havia vaga de PSF na época. Ela enviou para o Colegiado de Enfermagem da UEFS essas informações. Tive contato, mas vim por um chamado do município, não para ocupar a vaga no PSF que já estava ocupada. Trabalhei no Hospital e no Centro de Saúde em turnos opostos, isso em 2004.

 

Vírus: Como se tornou Secretário de Saúde?


Alexandro: Foi um processo interessante. Trabalhei no hospital 1 ano e 8 meses, chefiando a equipe de Enfermagem, parte hospitalar. Na Prefeitura, nesse mesmo período, fiquei no Centro de Saúde e assumimos a parte de assistência em outro foco, Atenção Básica: programas de hipertensão arterial, diabetes, tuberculose, hanseníase, acompanhamento de crianças, triagem neonatal e outros. No Centro de Saúde fiquei de 2004 a 2009, quando fui remanejado para a Vigilância Sanitária, ficando apenas um mês. Então Paula Aparecida passando em outro concurso, deixou a Coordenação da Atenção Básica e o município. Meu nome foi puxado para a Coordenação. Assumindo a coordenação, no final de 2009, ainda tomando pé da situação, aconteceu outro rodízio na secretaria. Ana Paula Ramaccioti saiu por licença maternidade, entrou Vaninha, temporariamente, já que assumiu também gestante. Então o Prefeito se viu naquele dilema de ter que fazer uma troca novamente, como eu já estava na área e meu nome sendo ventilado fui avaliado e convidado a assumir. Não queria, pois não me via como Secretário de Saúde, gosto de estar perto da coisa acontecendo e o Secretário, mesmo que não queira, acaba se afastando. Pra ser Secretário tem que ter perfil diferenciado, estar disposto a ouvir até o que fere e levar isso com tranquilidade. Antes não tinha essa clareza. Neguei o convite algumas vezes e quando aceitei, por todas as emergências e necessidades do município, deixei muito claro que ficaria apenas quatro meses para ajudar e acabei ficando cinco meses. Tinha convicção de que eu não estaria feliz na condição de gestor, pois meu perfil é outro, não é a minha praia. Deixei claro em reunião que quebraria esse galho e tentaria não decepcionar.

 

Vírus: Quais foram suas principais metas enquanto Secretário?


Alexandro: Quando entramos nós já tínhamos uma leitura de alguns problemas que deveríamos solucionar pontualmente, mas uma coisa é você estar de fora da gestão e ver vinte problemas, quando você entra descobre que são duzentos. Procuramos inicialmente fazer uma gestão colegiada, coletiva, não queria fazer nada só, tentar dar uma maior abertura, escutar mais, minimizar a distância, aproximar, modificar equipes, trocar pessoal de lugar para oxigenar os setores e as pessoas para que elas se descobrissem em outras áreas. Avançamos em ações na Vigilância Sanitária e Epidemiológica. Focamos nisso porque é onde nós podíamos atingir um maior número de pessoas, prevenindo doenças e promovendo saúde, que é um papel invisível e não valorizado. Profissionalizamos melhor o planejamento de compras de medicamentos, colocando na função quem entende, fundamentando seus passos na direção daquilo que realmente é importante.

 

Vírus: O que você alcançou e o que não alcançou?


Alexandro: Cinco meses não dá nem para entender a máquina. Quando você entra na administração pública é um mundo, é legislação para tudo. A máquina é lenta e as coisas acontecem muito rapidamente. Fizemos algumas modificações em Vigilância Sanitária, conseguimos esse gás com o grande apoio da equipe de Ticiane Mota, uma pessoa com bagagem, experiência. Vestiram a camisa, entenderam o propósito. Conseguimos ver o serviço andando melhor, e passamos a ter uma avaliação melhor da Regional com relação a essa evolução. Na parte Epidemiológica avançamos no acompanhamento, na atenção, no acesso a informação e resposta rápida, mas temos muitos problemas. Tivemos também o privilégio de permitir que a equipe do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) construísse a primeira Conferência de Saúde Mental do município, muito importante para a discussão dos problemas enfrentados na área.

 

Vírus: Que entraves dificultam o andamento dos trabalhos na área de saúde em Miguel Calmon?


Alexandro: Sem dúvida, o financiamento em saúde. O Brasil, comparado com outros países, investe pouco em saúde e daquilo que é investido temos uma série de inadequações em termos operacionais. Em algumas coisas que poderíamos ter uma maior flexibilidade, a verba vem amarrada, muita burocracia. Outro fator importante é que muitos trabalhadores que atuam em saúde pública, não reconhecem o que é ser um trabalhador de saúde pública, um servidor público. Vêem apenas como um posto de trabalho, não se envolvem o suficiente e acabam refletindo negativamente no andamento do todo. Não queremos sacerdócio, doação ou voluntariado, só queremos que ele tenha consciência de que ele deve fazer algo pelo coletivo. Outro fator é a falta de regulação por parte da Prefeitura para que o trabalhador se sinta na responsabilidade de fazer o que tem que ser feito, sabendo que se não fizer alguém vai cobrar dele, correndo o risco de responder por aquilo que fez ou deixou de fazer. Falta isso na Prefeitura, essa estrutura com pessoas que sejam responsáveis por avaliar esses problemas. Errar é humano, natural, mas ver os erros se repetindo da mesma forma é inaceitável. A coisa ainda está muito solta. E por último, é você querer fazer aquilo que sabe que tem que fazer, a legislação exige e você esbarra, muitas vezes, enquanto gestor, em situações que não são interessantes do ponto de vista político-partidário, isso acontece.

 

Vírus: Você vê perspectivas de melhoras desse quadro?


Alexandro: Sim. Miguel Calmon tem potencial, agora é preciso buscar aumentar a receita do município porque aí você aumenta o percentual da saúde podendo assim investir mais em saúde e se a população se comprometer mais com o próprio município a gente consegue atingir isso em menos tempo. Não posso deixar de dizer que outro avanço é que o município tem poucos contratados na área da saúde, a maioria sendo efetiva, facilita o trabalho.

 

Vírus: O município gasta bem ou mal os recursos da área de saúde?


Alexandro: Eu digo que gasta bem, mas pode otimizar em alguns pontos. Veja esses números só para ilustrar: a lei diz que o município deve investir, no mínimo, 15% dos seus recursos próprios, em 2009 foi investido mais de 20%. Então, o município investe mais do que a lei determina. Agora é preciso investir mais naquilo que vá atingir um maior número de pessoas. Nós ainda podemos alcançar mais pessoas.

 

Vírus: A população calmonense participa, colabora com o Poder Público em relação a esses problemas?


Alexandro: Eu gostaria que fosse mais, ela precisa entender que precisa participar, se envolver. Dengue é um exemplo, partindo do princípio que a dengue não é só um problema gerencial, administrativo, é do coletivo e se cada morador fizesse seu papel, teríamos mais impacto.

 

Vírus: Em relação ao hospital, como você avalia o atendimento?


Alexandro: Eu entendo que recebemos muitas queixas e reclamações porque a população não sabe o que é um hospital. Há uma diferença entre o que a população acha que o hospital tem que fazer e o que ele realmente tem que fazer. O hospital é pra fazer parto, o paciente que está infartando é pra hospital, acidentes graves. A população inverte os papéis e acaba dificultando o trabalho do hospital. Agora veja onde está o problema: pelo número de habitantes de Miguel Calmon, nós deveríamos ter doze PSF (Programa de Saúde da Família) funcionando com equipe, incluindo médico, porque sem médico não é PSF. Mas infelizmente nós só temos três funcionando, ou seja, 25%. Não tem como sustentar. É uma situação difícil para a população que precisa do serviço e encontra essa situação, é difícil pra prefeitura porque ela responde por isso e é difícil para o hospital porque acaba se sobrecarregando. A nossa unidade, o Centro de Saúde que serve de retaguarda quando a coisa aperta, também está com déficit em profissional médico. Dentro do todo, a responsabilidade maior é do Poder Público. O prefeito sabe, a secretária sabe e estão tentando resolver, mas acabam esbarrando nas dificuldades de profissionais, condições de trabalho, plano de carreira que ainda não tem, melhor financiamento pois o médico só vem por uma melhor oferta de salário.

 

Vírus: O trabalho da secretaria de saúde em relação a conscientização da população é suficiente?


Alexandro: Ainda não, precisamos evoluir. Carecemos de muito mais equipes trabalhando nesse sentido. Aí está a importância do PSF, pois ali você teria uma equipe para uma população delimitada. Então esse é o problema, se tivéssemos os 12 PSF, teríamos 12 médicos, 12 enfermeiros e 24 técnicos de Enfermagem trabalhando nesse sentido, mas a realidade é que só temos três PSF funcionando, então fica muito difícil, sobrecarrega.

 

Vírus: Existe por parte de vocês algum temor em relação a dengue?


Alexandro: Sem dúvida. Estamos trabalhando desde o início do ano, principalmente agora com esse novo subtipo que, para quem já teve dengue, é muito perigoso. Se precisarmos de UTI, só Feira ou Salvador. A estrutura de Jacobina que era pra estar montada, não está. Isso nos preocupa e por isso tentamos conseguir 
o apoio da população, mas aí eu digo: Comitê de Combate a Dengue! Participação popular em massa! Última reunião: cinco pessoas. Convidamos associações, entidades representativas, população em geral, mas as pessoas não participam.

 

Vírus: O que ainda te preocupa em relação a outras doenças?


Alexandro: Tuberculose, pois temos uma população pobre e alcoolista. Casos diagnosticados temos poucos, mas acreditamos ter muito mais. HIV também me preocupa porque as pessoas não estão encarando o HIV como problema de saúde pública, não estão se prevenindo. Temos uns nove casos diagnosticados, mas assim como a tuberculose, acreditamos ter muito outros que anda não conseguimos diagnosticar.

 

Vírus: O que avançamos e onde paramos?


Alexandro: Avançamos na Vigilância que é um processo contínuo; temos um melhor acompanhamento dos indicadores no hospital e demais setores; Central de Marcação; funcionários efetivos; diálogos com os municípios; mas é importante lembrar que avançamos menos do que deveríamos.

 

Vírus: O cidadão comum, preocupado com a dengue, pode fazer alguma denúncia?


Alexandro: Pode e deve. Ligue pro ramal da prefeitura e peça pra falar com a Secretaria de Saúde. Sinalize o problema, passe o endereço, ponto de referência, não precisa se identificar. Mandamos o Agente de Endemias fazer a verificação e orientar a população.

 

Vírus: Como está a saúde pública calmonense?


Alexandro: Sendo bonzinho, e levando em consideração os diversos setores, em situação mediana.

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