A Espera

Por Rutinaldo Miranda
Novembro de 2003

O ônibus sai à meia-noite. A Rodoviária está quase deserta. Cadeiras perfiladas das dividem o saguão,formando corredores de plástico cinza. Quem não se rende ao cochilo sente a brisa da madrugada. Fria e suave, percorrendo livre caminhos nascidos de espaços vazios. Embalando os cabelos, ge-lando a pele do rosto. Acima dos paredões, o teto se eleva deixando ver a escuridão do céu. Uma velha ao meu lado, de vestido negro, perde o olhar nas nuvens que se revelam ao passarem pela claridade da lua. Parece estar em transe, os olhos azuis perdidos o infinito. Tem também um lenço negro na cabeça. Que contrasta com a alvura dos cabelos presos caprichosamente num coque. Está de luto? É bem provável. Este hábito, quase desaparecido, ainda sobrevive em algumas pessoas que atravessaram o tempo e vivenciaram seu uso. Deixo-a mergulhada nos seus pensamentos. Olho à minha frente. Uma garota ressona. Tem a cabeça no colo da mãe. O corpo estirado sobre duas cadeiras. A posição é desconfortável, as cadeiras de plástico, muito duras. E ela dorme tendo na face uma expressão de cansaço. Mudo meu olhar. Repouso-o sobre a mãe. Percebi que já me olhava há algum tempo. Nossos olhares ficam presos um ao outro por um instante. Então, ela o desvia, meio encabulada, pra velha de negro. Fico imaginando o que estaria pensando de mim. Talvez nada. Estou à sua frente e ela não pode olhar senão para mim. É nova, aparentando seus trinta anos. Suas mãos muito brancas se mantém alisando os cabelos cacheados da filha. Castanhos como os seus. Os olhos acinzentados agora acompanham o movimento da mão. 

A filha talvez possuía os seus da mesma cor. Pura suposição que não me atrevo a acreditar. Nesse mundo, verdades pré-estabelecidas não passam de dúvidas. Estamos, nós quatro, sozinhos no silêncio da rodoviária. Quebrado apenas pelo som distante dos ponteiros de um grande relógio redondo. Branco, suspenso por duas correntes sobre a catraca de embarque. A balconista, por mim esquecida, abre a pequena lanchonete, vizinha aos guichês da venda de passagem. Tem os olhos vermelhos, o rosto inchado. Não tinha aguentado o sono. Fechou para dormir sobre um colchonete velho que guardou atrás da geladeira. O som de um motor é ouvido longe. Olho para o relógio. Quinze pras doze. É meu ônibus que chega. Alguns passageiros descem. A balconista serve pedaços de bolo e copos de café fumegantes. A velha de negro se levanta, deve viajar comigo. Não vai. Compra um pedaço de bolo e volta ao seu lugar. Mastiga demoradamente, voltando a olhar a lua. O motorista buzina, chama os passageiros. Levanto-me, pego a mochila. Vou imaginando minha viagem. Quatrocentos quilómetros por estradas esburacadas. O ônibus chacoalhando a madrugada inteira. E eu me sinto cansado por ter andado o dia inteiro. Vendendo livros, na constante luta para ganhar a vida. Atravesso a catraca e olho pra trás. A mãe continua a alisar carinhosamente os cabelos da filha. Um carinho sincero, espontâneo. Sou invadido pela estranha vontade de ter minha cabeça também naquele colo. E... descansar. Um abraço,